domingo, 10 de noviembre de 2013

Álvaro



   "Sala 3". Terceiro andar da cadeia.

   Num topo, a entrada. Um gradão de ferro e uma porta chapeada.

   Depois, um enorme compartimento, tendo, de um lado, três janelas gradeadas para a rua e, do outro, a entrada para um comprido refeitóiro que, por mais uma janela gradeada, espreitava para um beco, onde a vizinhança estendia a roupa a secar.

   Do refeitóiro, uma porta para lavabos e retretes.
   Durante o dia, com os bailiques levantados e encostados às paredes, a "sala" era um espaço vazio para o pessoal circular.

   À noite, para se deitarem, os presos arreavam os bailiques e estendiam-nos em duas longas filas, uns junto aos outros, quase sem intervalos.


Livro: Sala 3 e outros contos
Autor: Manuel Tiago


viernes, 27 de septiembre de 2013

O povo unido....



- ... de acordo? Por exemplo, o barco existe porque um rico deu dinheiro para o construir. Mas, mover-se-ia sem marinheiros e fogueiros? No mar, existem milhões de caranguejos. Por exemplo, fizeram-se muitos preparativos e para isso, é certo, houve um rico que soltou a massa. Mas se nós não trabalharmos, vêem um único caranguejo a entrar no bolso de um rico? Compreendem? Quanto dinheiro é que nós ganhámos a trabalhar este Verão? Os ricos, com este barco, tiram entre quatrocientos mil e quinhentos mil ienes limpos, por cabeça. E de onde sai esse dinheiro? De zero não se tira nada. Não o percebem? Deve-se tudo à nossa força. Ou seja, não façam agora essa cara sombria de moribundos. No fundo são eles que têm medo de nós. Não nos amedrontam.
       Se não houvesse marinheiros e fogueiros, o barco não navegaria. Se os operários não trabalharem, não entra nem um cêntimo no bolso dos ricos. O barco que dei como exemplo foi comprado e equipado com o dinheiro que se obteve espremendo o sangue a outros trabalhadores. Com o dinheiro que nos roubaram..."

Livro: O Navio dos Homens - Kanikosen
Autor: Takiji Kobayashi


martes, 24 de septiembre de 2013

Liderança



     "Antes da merenda, um grupo de colegas mais novos começou, sem motivo aparente, a fazer buracos num monte de terra fresca. Edgar encontrou um pedaço de uma fita métrica de pedreiro e decidiu começar a fiscalizar a profundidade dos buracos, que todos os rapazes escavavam com afinco e de forma espontânea. Teodoro, ajoelhado à frente do seu pequeno buraco, reparou que Edgar tinha adquirido uma posição determinante no grupo, porque toda a gente quería que ele aferisse a profundidade da sua cova, com aquele fragmento metálico de medição e alguns começaram mesmo a chamar-lhe engenheiro. Ora Teodoro, que tinha sido distingido com a melhor nota a Matemática, não podia tolerar aquilo, especialmente em Edgar, um dos piores alunos da turma. Teodoro é que deveria ser o engenheiro e jamais as circunstâncias poderiam alterar o que estava escrito no quadro de honra, por isso deixou de escavar, aproximou-se de Edgar, e já um poco envergonhado pelo que ia fazer, disse-lhe a meia-voz, "ouve lá, tu não podes ter essa responsabilidade, tiveste sempre negativa a Matemática e só passaste porque estudaste comingo!"

     Teodoro não concebia que, para além do saber fundamentado, outros factores pudessem alterar o curso dos acontecimentos e sobretudo que alguém sem uma dedicação total à escola pudesse ultrapassar quem tinha as melhores notas. Não podia aceitar que Edgar, na prática, pudesse ocupar um posto mais elevado do que ele, apenas pela estratégia da antecipação. Edgar olhou para ele e penso que não valia a pena argumentar, atirou com a fita metálica para o lado e viro-lhe as coas um pouco magoado.

     Teodoro, recém-empossado no cargo a que achava ter direito, tomou posse da fita métrica e voltou-se para o grupo para continuar a tarefa, à espera que lhe pedissem conselhos para a obra. Antes de qualquer pedido formal, começou a ditar algumas ordens e subitamente, tal como tinha surgido, o interesse pelos buracos perdeu-se. Talvez  porque quase todos tinham já atingido a profundidade equivalente ao tamanho dos seus braços e, aos poucos, todos acabaram por abandonar aquela posição curvada, com as mãos na terra, para se dirigirem a outros interesses.

      Teodoro ficou a olhar para a fita métrica inútil na mão direita, apenas com dois ou três buracos activos de retardatários que ainda não tinham reparado onde se situava a acção. Edgar tiha descoberto uma amendoeira podre que abanava por todos os lados e que era boa para mandar abaixo e fazer uma fogueira. Edgar estava encarregado de dizer onde se devia fazer força e qual a intensidade a aplicar".

Livro: Trás-os-Montes
Autor: Tiago Patrício

jueves, 8 de agosto de 2013

Ilusão




     "Durante várias semanas andei para ali às voltas à procura de um modo de começar. Estava sempre a repetir a mim mesmo que qualquer vida é inexplicável. Por mais factos que fossem contados, por mais pormenores que fossem fornecidos, o essencial resiste a qualquer tentativa de ser contado. Dizer que alguém nasceu aqui e foi para ali, que fez isto e aquilo, que casou com esta mulher e teve estes filhos, que viveu, que morreu, que deixou estes livros ou esta batalha ou aquela ponte -nada disso nos diz muito.  Todos queremos que nos contem histórias, e escutamo-las como fazíamos quando éramos jovens. Imaginamos a história verdadeira contida nas palavras, e para fazermos isso pomo-nos no lugar da pessoa de que a história fala, fingimos que podemos compreendê-la porque nos compreendemos a nós próprios. Isto é uma ilusão. Existimos por nós mesmos, talvez, e por vezes até conseguimos ter um vislumbre de quem somos, mas no fim nunca podemos ter a certeza, e conforme as nossas vidas continuam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós próprios, cada vez mais conscientes da nossa própria incoerência. Ninguém consegue atravessar a fronteira para entrar dentro de outra pessoa -pela simples razão de que ninguém tem acceso a si mesmo."

Livro: A Trilogia de Nova Iorque  (O Quarto Fechado)
Autor: Paul Auster

viernes, 14 de junio de 2013

Vender el pescado




     Se puede decir que dedicarse a vender bacalao a los países del sur ya no lo es todo. Un día llegas a Copenhague, de lo más elegante, y ¿qué sucede? En los periódicos te denominan "Barón de las salazones". Porque aunque el pescado salado sea una de las mercancías más caras para el transporte internacional, pues en cuanto se prensa se vuelve muy pesado, el pescado salado es, en sí y de por sí, una mercancía ridícula; y es justo, pues, como digo yo, queridos niños, apreciados tíos y tías, distinguidos compatriotas: al pescado hay que ponerle un lacito.
     Y no basta con ponerle un lazo danés al pescado islandés, sino que el lazo debe ser de fama internacional. Dicho en una sola palabra, hay que demostrar al mundo que el pescado canta; y que canta bien. Por eso, quienes vendemos pescado hemos dedicado ímprobos esfuerzos a la mejora del nivel cultural de nuestra nación, a fin de demostrar, dentro y fuera de nuestras fronteras, que somos una aristocracia que o se limita a sacar el pescado de las profundidades del mar, sino que además sabe ponerle un lazo en el pescuezo, para gozo del mundo entero, tal como aquí se dice: er ging in ein Wirsthaus hinein um zu Mittag zu essen.

Libro: El concierto de los peces.
Autor: Halldór Laxness

martes, 4 de junio de 2013

Toca saltar por la ventana y largarse



     "Es verdad que habría podido decidirse antes y de paso haber tenido la deferencia de comunicar su decisión a los interesados, pero Allan Karlsson nunca había dedicado tiempo a pensar las cosas antes de hacerlas.
     Por tanto, en cuanto la idea le vino a la cabeza, abríó la ventana de su habitación en el primer piso e la residencia de ancianos de Malmköping, provincia de Södermanland, y bajó por el emparrado hasta el arriate del jardín.
     La maniobra le resultó complicada, algo comprensible dado que ese mismo día Allan cumplía cien años. En menos de una hora se celebraría su fiesta de cumpleaños en el salón de la residencia. El mismísimo alcalde haría acto de presencia. Y la prensa local. Y el resto de los ancianos. Y el personal al completo, con la furibunda enfermera Alice a la cabeza, por supuesto.
     Sólo el homenajeado no tenía la intención de presentarse."

Libro: El abuelo que saltó por la ventana y se largó
Autor: Jonas Jonasson
    

martes, 21 de mayo de 2013

O cavalo de cartão



   "Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado, deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, acreditas? E nessa noite choveu. No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei."

Livro: Nenhum Olhar
Autor: José Luís Peixoto

martes, 30 de abril de 2013

Iceland




     "- Y nuestro pueblo no volverá a ser azotado por exigir un precio digno para todas las mercancías -dijo Arnas Arneus-. Construiremos villas al estilo de otras naciones en torno a todos los puertos y crearemos una flota pesquera y venderemos pescado seco y géneros, como en los tiempos anteriores a los de Jón Arason, en las ciudades del continente, comprando a cambio mercancías dignas de hombres civilizados. Extraeremos de la tierra materias preciosas. El emperador enseñará el puño al rey danés y le exigirá que devuelva a los islandeses los objetos preciosos que hizo robar de la catedral de Hólar y de los monasterios de Munkathverá, Mödruvellir y Thingeyri. Asimismo serán devueltas las propiedades de que la Corono privó a la Iglesia islandesa después de su caída. Y se alzarán en Islandia universidades y colegios, en los que los estudiosos islandeses puedan vivir nuevamente una vida humana.

     - Y edificaremos palacios no menos soberbios que los que el gobernador Gyldenloeve se ha hecho construir en Dinamarca con el dinero de Islandia.

     - En Thingvellir se elevará una soberbia Casa de Justicia, y en su torre se colocará una campana más grande y más sonora que la que el rey mandó requisar y el verdugo ordenó derribar a Jón Hreggvidsson - dijo él.

     - Y la luna fría que se refleja en la Sima de los Ahogados dejará de ser el único consuelo de las mujeres pobres -dijo ella.

    - Y los mendigos hambrientos no volverán a ser ahorcados en nombre de la Justicia en el Almanngja -dijo él.

    - Y todos serán nuestros amigos nuestros porque todos vivirán bien.

    - Y la mazmorra será suprimida, porque en un país donde todos viven bien no se cometen crímenes.

    - Y nosotros dos cruzaremos el país en caballos blancos ... -dijo ella."

Libro: La campana de Islandia
Autor: Halldór Laxness

viernes, 19 de abril de 2013

A luta



   De súbito perguntou:

  -Dime, compañero, vamos a perder la guerra?

  Antes que o camarada falasse, passaram como um relâmpago na memória de Abel as palavras de Rúbio que Ántonio lhe citara. "Las grandes luchas victoriosas de los trabajadores y de los pueblos han sido posibles porque los trabajadores y los pueblos han luchado en cada caso confiando en la victoria, pero sin tener la certeza de alcanzarla."

Livro: A casa de Eulália
Autor: Manuel Tiago


martes, 2 de abril de 2013

Um livro todo engelhado




Um livro todo engelhado.

O frio no corpo todo
pés à mostra e cortado
o nevoeiro é curvar rente
como um agasalho

Cresce do mar e encosta
cresce espesso e amarelo
ir daqui a outro lado
se noutra vida à brava te amasse
é talvez numa dessas cadeiras

Uma história lida devagar
e engraçadas as mãos
a fingir.

Livro: Uma pedra parecida
Autor: Hugo Milhanas Machado

sábado, 23 de marzo de 2013

Despertares



     "Cão obcecado. Tarado sexual, digo eu. Apaixonado, corrige a minha filha. Começou na praia, com uma cadela rafeira. Foi para ele uma iniciadora, misto de amante, mãe, irmã e puta. Passou as férias em cima dela. A cadela deixava, sem grande entusiasmo, mas dir-se-ia que com ternura e compreensão. Ou compaixão. Parecia muito velha para ter filhos, mas uns tempos depois apareceram uns rafeiros malhados do Kurika. Ou vice-versa.

     Todos os Verões ele se apaixonava. Então ficava de nariz colado à porta da entrada. Abria-se a porta e ficava marrado em frente da casa da favorita. Gemia de amor, aquele cão Romeu qeu queria estar o mais perto possível da sua Julieta. 

     Às tantas desaparecia. Voltava passados dois ou três dias, mais morto que vivo, a cheirar a cadela e ao pó dos caminhos.

     Eram amores de praia, intensos e passageiros."

Livro: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre

jueves, 14 de marzo de 2013

Irresignação



    -Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.

     O coronel não mexeu um músculo.

   -Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.

   -Nada mais do que um filho morto.

    O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.

   -Cumprimos o nosso dever  -disse ele.

   -E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos  -replicou a mulher.  -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.

   -Mas está a morrer de diabetes  -contrapôs o coronel.

   -E tu estás a morrer de fome  -retorquiu a mulher.  -Para que te convenças de que a dignidade não se come.

Livro: Ninguém escreve ao Coronel
Autor: Gabriel García Márquez

jueves, 7 de marzo de 2013

Invierno




     "Piensas que nunca te va a pasar, imposible que te suceda a ti, que eres la única persona del mundo a quien jamás ocurrirán esas cosas, y entonces, una por una, empiezan a pasarte todas, igual que le suceden a cualquier otro."

Libro: Diario de invierno
Autor: Paul Auster

lunes, 4 de marzo de 2013

Sair da rotunda



   "Nem sempre Aaronson esteve morto.  
    Num certo período, Aaronson foi mesmo, sem exagero, um ser vivo.
    Entre os vinte e sete e os trinta anos Aaronson circulava -como um insecto obcecado- em torno de uma rotunda.
    Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade. rotunda onde desembocaba sessenta por cento do tráfego.
    Às sete da manhã o fumo dos automóveis era menor do que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem dava centenas de voltas à rotunda. Aaronson.
    Qualquer hábito, qualquer repetição de um acto por mais absurdo que seja, rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas; em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruoso e o informe se faça normalidade e hábito. No limite: facto a que não se dá atenção, paisagem.
    Entre as sete e as sete e meia, os automobilistas que por hábito passavam pela rotunda já sabiam que, também por hábito, um homem, vestido a rigor com calções e camisola de atleta, circulava por ali. Centenas e centenas de vezes em redor da mesma rotunda, como um carro que não soubesse o caminho, que hesitasse entre seguir por uma direcção ou outra; que se deixasse estar por ali, à roda, não arriscando, não tomando uma opção. Enquanto estiver na rotunda não estou perdido, pelo menos não volto atrás. E eis um dos atractivos daquela circulação, circulação quase infinita não fora ela terminar com exactidão às trezentas voltas: em redor de uma rotunda ningém volta atrás, ninguém se engana, ninguém tem de assumir o erro e fazer inversão de marcha. A vida, apesar de tudo, é fácil. Numa rotunda.
    Ninguém gosta de ser humilhado e Aaronson (se fosse um automóvel) pelo menos não entrava na estrada errada. Trezentas voltas para ganhar balanço e depois o regresso a casa. Não arrisques! -parecia alguém dizer-lhe ao ouvido.
    Falemos brevemente da rotunda: uma circunferência perfeita. Diâmetro: impossível saber ao certo, mas era exacto -um número sem arredondamentos.
    Aaronson entre os vinte e sete e os trinta anos, no período em que corria entre as sete e as sete e meia da manhã à volta da rotunda principal da cidade, foi considerado apenas um louco previsível -o que é ser metade de um louco pois a previsibilidade divide o perigo em dois.
    Alguns dias depois de fazer trinta anos deixou, no entanto, de fazer a sua corrida na rotunda.
    Deixaram de o ver. E deixaram de o ver porque Aaronson morreu. E a cidade envergonha-se tanto de um corpo morto que, no máximo, numa hora, o corpo desaparece. Se alguém quiser ver o corpo morto que se dirija pois ao sítio em causa, naquele período mínimo em que o morto está morto em plena cidade."

Livro: Matteo perdeu o emprego.
Autor: Gonçalo M. Tavares


miércoles, 20 de febrero de 2013

Sem maiúsculas


    "porque a sua morte me aterroriza. não passa, américo, não passa. a morte dela não passa. o américo esperou uns segundos por que me acalmasse, procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida, um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido, tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de uma grande paixão.
    
    esse era o segredo que só o tempo guardava. só o tempo revelaria tal milagre. o tempo, e a sensibilidade de quem via o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia."

Livro: a máquina de fazer espanhóis.
Autor: valter hugo mãe

domingo, 17 de febrero de 2013

Pornolectoras



   "Sin corazón no se puede ir muy lejos. En los relatos mitológicos te lo pueden quitar todo, te pueden asesinar, descuartizar o quemar, pero siempre hay un truco para salvarse: basta con que no lleguen al corazón. Si acaban con el corazón, no hay resurrección posible. Sin corazón no hay inmortalidad. Por eso hay que cuidarlo muy bien. Alguien debe encargarse de él y guardarlo en un lugar seguro. El alma del poeta conquista su fin más elevado, la eternidad, gracias al sacrificio de una bella mujer que, al comerse el corazón de su amante, lleva a cabo un acto supremo de devoción hacia él. Acepta que la ha seducido hasta consumirla por completo."

Libro: Las buenas chicas no leen novelas
Autora: Francesca Serra

jueves, 14 de febrero de 2013

Resiliencia



     "Para ese espíritu no había ni un poco de piedad e Bjartur. No importa cuan frecuentemente cayera de cabeza e los hondones, se levantaba enseguida, impávido y llevando con redoblada furia otro ataque, apretando los dientes y lanzando maldiciones a las aceradas fauces del demonio, decidido a no detenerse antes de que el maldito espíritu de Grímur hubiese  sido perseguido hasta los más remotos rincones del infierno, hasta que la espada desnuda le hubiese traspasado y sus convulsiones de muerte comenzaran en una ronda de tierra y mar.

   Una y otra vez se imaginó que había ultimado a Grímur y que lo había enviado aullando al infierno con las inmortales palabras del poeta, pero la tormenta de nieve seguía acometiéndole con furor no disminuido cuando llegó a la cima de la montaña siguiente, le arañó los ojos y trató de voltearle; gimió vengativamente en sus oídos, le tiró de los pelos de la barba... La lucha no había terminado en modo alguno; todavía combatía a brazo partido con los señores del infierno vomitadores de veneno, que arrasaban la tierra en furibunda malicia hasta que la bóveda del cielo retumbaba con el eco de su carrera."

Libro: Gente independiente
Autor: Halldór Laxness

domingo, 27 de enero de 2013

Prazo



    "Veronique suspira, um pouco nostálgica desse tempo perdido, e apetece-lhe ler Proust em vez de Flaubert. Sorri de si própria e desse instintivo recurso à literatura que sempre lhe acontece. Logo rectifica a expressão tempo perdido: esse tempo não foi perdido, não está perdido, apenas passou como passam todos os percursos humanos."

Livro: O bazar alemão
Autora: Helena Marques 

miércoles, 16 de enero de 2013

Lá longe



     "E havia as outras pessoas, lá longe, a milhares de quilómetros, a passarem de carro nas estradas onde eu costumava passar também, a terem o número do meu telemóvel na sua lista, a terem o meu endereço de email e, talvez, a lembrarem-se de mim às vezes. Alguns a ligarem-me e a encontrarem sempre o telemóvel desligado, a escreverem-me emails e a minha resposta não chegar.

     No passado, porque tinha sido preciso escrever romances ou vivê-los, já tinha desligado o telefone por períodos mais ou menos longos. Ainda assim, nestas alturas, eu sabia em que gaveta ele estava e, a meio da noite, quando me apetecia, podia ligá-lo e ouvir as mensagens desesperadas de vozes a viverem o pequeno drama dos prazos e dos pedidos múltiplos que tinham para me fazer. No email, era exactamente a mesma coisa. Pedidos, pedidos, a maioria dos quais acrescidos de chantagem emocional mais ou menos velada.

     Com essa experiência, tive um poco a ideia do que é morrer.

     Na primera semana, está toda a gente em pânico. Há os textos que têm de ser entregues, os convites que precisam de uma resposta urgente. Urgente, urgente. Na primeira semana, é tudo urgente. A ansiedade sufoca até as palavras escritas por email, sente-se.

     Na segunda semana, sem resposta, sem sinal de vida, uma parte grande dessas pessoas deixa de ligar ou escrever. Aqueles que ainda insistem, deixam mensagens no telemóvel sem terem a certeza de que vão ser ouvidas. Então, têm a consciência de que podem estar a falar sozinhos. Falam muito mas pausadamente do que antes, desanimados, fazem pausas, como se tentassem ouvir o próprio eco.

    Na terceira semana, quase ninguém tenta ligar. Passam-se dias sem uma única mensagem. Ao abrir o email, só publicidade. A urgência acabou, começa apenas a passar o tempo.

    Na Coreia do Norte, experimentava outro tipo de morte.

    Ali, era eu que estava desligado e guardado numa gaveta. Aquela era uma morte sem notícias do que deixava para trás."

Livro: Dentro do Segredo (Uma viagem na Coreia do Norte)
Autor: José Luís Peixoto

domingo, 13 de enero de 2013

Mãos



Duarte imaginou que dentro do barbeiro Alcino, em virtude de alguma estranha patologia, se estava a criar, constantemente, uma quantidade de energia muito superior àquela de que o barbeiro Alcino precisava para fazer a sua simples vida de barbeiro. E aquele excedente de energia, por forma que o barbeiro Alcino não explodisse, era libertado pelas mãos, que funcionavam como uma espécie de válvulas de escape. Quando, por algum motivo de força maior, as mãos estavam impossibilitadas de desempenhar essa função, os lábios, situados no degrau imediatamente acima do sistema de segurança, entravam em funcionamento.
Se, porventura, o barbeiro Alcino segurasse uma tesoura ao mesmo tempo que fumava, por exemplo, começaria, eventualmente, a piscar os olhos ou a bater, descontroladamente, com os pés no chão.

Duarte imaginou o barbeiro Alcino com apenas dez anos: uma caligrafia horrível, uma incapacidade quase absoluta para se vestir, para abotoar os botões da camisa, para fazer o nó nos atacadores, para jogar ao berlinde, aos matraquilhos, snooker nem pensar, dominó, para mijar de pé, para transportar um copo de água desde a cozinha até à sala, para tirar uma única moeda da carteira sem as outras todas caírem ao chão. Os pais, claro está, preocupadíssimos com o futuro do seu filho Alcino. Até que, um dia, o vêem pegar numa tesoura e vislumbram, se não um milagre, pelo menos uma luz ao fundo do túnel: o filho será barbeiro, o melhor barbeiro do salão Playboy.

Duarte não tem certeza se o barbeiro Alcino é de facto o melhor barbeiro do salão Playboy, mas acredita que será, provavelmente, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. Mais: de terem assistido a um prodígio. Como certas pinturas que nos comovem não pelas suas qualidades estéticas, mas por sabermos, de antemão, que foram pintadas por crianças sem braços.

Livro: O teu rostro será o último
Autor: João Ricardo Pedro