viernes, 26 de agosto de 2011

Ética



   "Quando os humanos se referem à nossa forma de actuar, dizem, depreciativamente, que funcionamos através do instinto. Como se o instinto não fosse uma forma superior de inteligência. Referem-se ao instinto como coisa inferior, precisamente porque não o possuem em grau tão apurado como nós.
    Apesar destas apreciações negativas em relação aos humanos, reconheço que temos algumas parecenças. Homens e gatos possuem a mesma região do cérebro responsável pelas emoções. Agora vejam como expressamos essas emoções: os homens manifestam-nas, bastas vezes, através das guerras, dos saques, da destruição lenta do planeta. Os gatos exprimem a emoção contemplando o sol, fazendo do mês de Janeiro a festa da renovação. E dormir, dormir imenso, para que os sonhos tenham todo o tempo do mundo para se manifestar. Ética. É isso. Ética que nos vem do facto de, apesar de sermos territoriais, o nosso código de liberdade rejeitar a propiedade privada.
   Não tarda nada, estou a ser rotulado de marxista..."

Livro: Sei onde mora o Herberto Helder
Autor: Manuel Monteiro

viernes, 19 de agosto de 2011

Brasil


" - Você não percebe? A voz do músico brasileiro João Gilberto é uma voz noturna.
  - Como assim?
  - Quando está muito tarde, a cidade está apagada e as pessoas estão em casa, 
    você repara que elas falam naturalmente num tom baixo?
  - Sim.
  - É uma voz que só se usa com quem se tem intimidade.
  - Shum?
  - O quê?
  - Talvez, um dia a gente possa se falar com as nossas vozes noturnas."

Livro: O único final feliz para uma história de amor é um acidente
Autor: João Paulo Cuenca

jueves, 18 de agosto de 2011

Scenic

    "Não posso dizer que as coisas entre mim e Alicia começaram a correr mal. Só que deixaram de ser tão boas. Não sei bem explicar porquê. Simplesmente um belo dia acordei e já não sentia o mesmo. Não gostava de não sentir o mesmo, porque aquele sentimento era bom, e sem ele sentia-me vazio, mas tinha desaparecido e não havia nada que eu pudesse fazer para o recuperar. Ainda tentei fingir que estava tudo na mesma, mas parecia-me que só o facto de tentar piorava a situação.
   Para onde tinha ido? Era como se tivesse havido imensa comida no nosso prato e nós a tivéssemos comido tão depressa que não sobrara nada. Talvez fosse assim que os casais sobrevivem: evitando ser gananciosos. Sabendo que o que têm no prato terá de durar muito tempo, tentando debicar a comida. Espero que não seja assim. Espero que, quando duas pessoas são felizes juntas, seja comose alguém lhes trouxesse segundas e terceiras doses de comida."

Livro: Slam
Autor: Nick Hornby


miércoles, 3 de agosto de 2011

Foram tantas as tormentas


   "Como o tio Victor me dissera num dia já longínquo, uma conversa assemelha-se a lançar e apanhar uma bola de baseball com alguém. Um bom parceiro atira a bola directamente para a nossa luva, de modo que é quase impossível nós não a apanharmos; quando somos nós a atirar a bola, esse parceiro apanha tudo o que nós lhe mandamos -mesmo os lançamentos mais transviados e incompetentes. Era exactamente isso que Kitty fazia. Lançava sempre a bola direitinha para a cova da minha luva, e, quando era eu a atirar-lhe a bola, não havia nada que ela não apanhasse: saltava para interceptar bolas que passavam muito acima da sua cabeça; mergulhava com agilidade, fosse para a esquerda, fosse para a direita; ou investia sem medo para apanhar bolas mesmo antes de caírem ao chão. Melhor ainda: a sua arte era tão perfeita, que me fazia sempre sentir que eu lançara mal as minhas bolas de propósito, como se o meu único objectivo fosse tornar o jogo mais divertido. Kitty fazia-me parecer melhor do que eu era, e isso fortalecia a minha confiança, o que, por sua vez, me ajudava a lançar-lhe bolas mais fáceis de apanhar. Por outras palavras: eu comecei a falar com ela, e não comigo mesmo, e o prazer que isso me dava era uma experiência única, incomparável, algo que eu não vivia havia muitos anos."

Livro: Palácio da lua
Autor: Paul Auster