martes, 6 de diciembre de 2011

Historia



   "Dos años antes de morir, Fernando cometió un error político similar al de su padre. En lugar de seguir el derecho visigodo y leonés, que disponía que las posesiones reales no se dividieran entre distintos herederos, se basó en las normas navarras y troceó sus territorios entre sus hijos. A Sancho, el primogénito, le dejó el Reino de Castilla y las parias (tributos) de la taifa de Zaragoza. A Alfonso, dicen que su preferido, el Reino de León y las parias de Toledo. A García, el tercer varón, el Reino de Galicia y las parias de las taifas de de Badajoz y Sevilla. A Urraca, el señorío de Zamora. A Elvira, el de Toro.

    Era un lío, una excusa perfecta para que los hermanos se metieran en una espiral de enfrentamientos, intrigas y traiciones. Y para que viniera el Cid a pedir cuentas al ganador final de la contienda -o quizás no-. Y para que llegaran los juglares a contarlo en versos contundentes y falsarios, de los que luego contribuyeron a la tergiversación de la historia real, al nacimiento de una nación inventada."

Libro: La nación inventada (una historia diferente de Castilla)
Autores: Arsenio Escolar /  Ignacio Escolar

miércoles, 23 de noviembre de 2011

Fuga


    "Ronda das quatro horas. Luzes acesas. Os dois guardas avançaram sem nada notar de extraordinário. Cada preso coberto pelas mantas. Nenhum movimento suspeito.
   
    Já perto do extremo da "sala", a pouca distância da última janela gradeada, estacaram em pânico. Nas grades, um enorme buraco abria passagem para fora, para a cidade, para o ar livre.

   Soaram agudos apitos de alarme e pedido de socorro. Pistolas em punho, os guardas voltaram-se desorientados para um lado e outro. Os presos acordaram em sobressalto sem perceber o que se pasava.

   Breves instantes e alguns guardas mais, brandindo cassetetes, invadiram a "sala" e bloquearam a saída.

   - Tu aí! - gritaram para Vítor que, coberto pela manta, fingia dormir.  - Não ouves? - insistiram arrancando-o do bailique à pancada.
     - Onde estão os teus camaradas?  -perguntaram ao darem pela falta dos fugitivos.

     A própria pergunta, de tão tola que era, confirmava o êxito da fuga.

   - Não dei por nada - respondeu Vítor. E a alegria era tanta que mal sentia as pancadas brutais, que logo sobre ele descarregaram."

Livro: Sala 3
Autor: Manuel Tiago   

lunes, 7 de noviembre de 2011

Lisboa


   "Amo a Lisboa dos profundos ruídos, as avenidas planas nas manhãs de domingo e os bairros da periferia onde dei por mim a ser personagem de um quotidiano que nunca assumiu a dimensão real ou sequer a ficção do destino potuguês. Em Lisboa, limitei-me à diferença discreta, à segunda infância que já não ia ser eterna nem contemplaria mais esta paisagem de mar."

Livro: Gente feliz com lágrimas
Autor: João de Melo

domingo, 30 de octubre de 2011

Mundo errado


   "Parecia-me que não encaixava em nenhum sítio, como se tivesse nascido no mundo errado. A sensação de nunca me sentir completamente confortável ou seguro, de estar sempre à margen e separado, abatia-se pesadamente sobre mim.
    Tornava-me, gradualmente, cada vez mais consciente da minha solidão e comecei a desejar ter um amigo. Todos os meus colegas tinham pelo menos um e muitos tinham vários. Passava horas, à noite, na cama, acordado a olhar para o tecto e a imaginar como seria ser amigo de alguém. Tinha a certeza de que, de algum modo, me tornaria menos diferente. Talvez então, imaginava, as outras crianças não pensassem que eu fosse tão estranho. O facto de o meu irmão e a minha irmã mais novos terem vários amigos que, por vezes, vinham com eles da escola para casa não ajudava. Ficava sentado junto à janela que dava para o jardim, a ouvi-los brincar. Não conseguia compreender porque não falavam sobre coisas realmente interessantes, como moedas, ou castanhas, ou números, ou joaninhas."

Livro: Nascido num dia azul
Autor: Daniel Tammet

lunes, 24 de octubre de 2011

Chiquíssima


   "Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da `Liga Internacional das Mulheres Inúteis´, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

   Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

   Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

   De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade."

Livro: Contos Exemplares
Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 23 de octubre de 2011

L´AUBISQUE


   "Diz que nos esperam em casa
     e temos motivo de alegria seja esse
     e portanto descemos contentes


    Vi no Amélie que a sorte é como o Tour de França
    uma vida na espera e entretanto já passou
    o pelotão já passou vem o carro-vassoura
    lembramos divertimentos cremos nos filmes


    Eu desço a montanha
    a terra larga e espectacular
    e só quero tocar a tua trança


    Esperam-nos em casa
    com teu consentimento
    diz por favor que jantamos juntos."

Livro: As junções
Autor: Hugo Milhanas Machado

jueves, 20 de octubre de 2011

Autenticidade


   "Mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches febris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artificio a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama: `Aaaah!´ Que nome davam a ese tipo de jovens na Alemanha de Goethe?"

Livro: Pela estrada fora
Autor: Jack Kerouac

jueves, 6 de octubre de 2011

Virtualis


"Três dias depois
Assunto: Fim da pausa!
Estimada Emmi, fizemos uma pausa de três dias nos e-mails. Acho que já podemos voltar a conversar. Desejo-lhe um bom dia de trabalho. Penso muito em si, de manhã cedo, à hora do almoço, ao fim do dia, à noite, nos intervalos, pouco antes ou depois disso e também durante esse tempo.
Com muita estima,
Leo

Dez minutos depois
RE:
M. (Me, Mes, Mest, Mestr...) Querido Leo. Foi VOCÊ que fez uma pausa nos e-mails, e não eu! Eu observei intensamente a forma como fez uma pausa nos e-mails. E fiquei à espera que a terminasse finalmente. Esperei muito impacientemente. Mas valeu a pena. Cá está você novamente, e pensa em mim, que bonito! Está bom? Tem tempo e vontade de beber um copo de vinho comigo hoje ao fim da tarde ou ao início da noite? Naturalmente cada um no seu sítio. Você e a Emi de fantasia. Eu e o Leo virtual. Depois escrevemos algumas palavras sobre isso. Quer?"

Livro: Quando sopr@ o vento norte
Autor: Daniel Glattauer

sábado, 17 de septiembre de 2011

TEA




     "No passado, quando me criticavam por fazer perguntas inesperadas, sentia-me envergonhado. Agora percebi-me de que as pessoas normais agem de maneira superficial e muitas vezes falsa. Por isso, em vez de permitir que me façam sentir mal, expresso o meu descontentamento. É a minha forma de tentar marcar um ponto a favor da lógica e da racionalidade.
      As dificuldades de conversação que sinto realçam um problema com que os portadores de Asperger se deparam diariamente. Uma persona com uma deficiência óbvia -a deslocar-se de cadeira de rodas, por exemplo-  é tratada com consideração porque a sua incapacidade é óbvia. Ninguém se vira para um tipo numa cadeira de rodas e diz: "Rápido! Vamos atravessar a rua a correr!" E, como ele não pode atravessar a rua a correr, ninguém lhe pergunta: "Qual é o seu problema?"  Oferecem-se para o ajudar a atravessar a rua.
      Eu, contudo, não exibo qualquer sinal exterior de uma incapacidade conversacional. Por isso, quando dou um passo em falso na conversa, alguém exclama: "Que idiota mais arrogante!"  Espero ansioso o dia em que a minha deficiência me permita desfrutar do mesmo respeito concedido a um fulano numa cadeira de rodas. E, se esse respeito vier acompanhado de um lugar reservado no parque de estacionamento, não direi que não."

Livro: Olha-me nos olhos
Autor: John Elder Robison

viernes, 26 de agosto de 2011

Ética



   "Quando os humanos se referem à nossa forma de actuar, dizem, depreciativamente, que funcionamos através do instinto. Como se o instinto não fosse uma forma superior de inteligência. Referem-se ao instinto como coisa inferior, precisamente porque não o possuem em grau tão apurado como nós.
    Apesar destas apreciações negativas em relação aos humanos, reconheço que temos algumas parecenças. Homens e gatos possuem a mesma região do cérebro responsável pelas emoções. Agora vejam como expressamos essas emoções: os homens manifestam-nas, bastas vezes, através das guerras, dos saques, da destruição lenta do planeta. Os gatos exprimem a emoção contemplando o sol, fazendo do mês de Janeiro a festa da renovação. E dormir, dormir imenso, para que os sonhos tenham todo o tempo do mundo para se manifestar. Ética. É isso. Ética que nos vem do facto de, apesar de sermos territoriais, o nosso código de liberdade rejeitar a propiedade privada.
   Não tarda nada, estou a ser rotulado de marxista..."

Livro: Sei onde mora o Herberto Helder
Autor: Manuel Monteiro

viernes, 19 de agosto de 2011

Brasil


" - Você não percebe? A voz do músico brasileiro João Gilberto é uma voz noturna.
  - Como assim?
  - Quando está muito tarde, a cidade está apagada e as pessoas estão em casa, 
    você repara que elas falam naturalmente num tom baixo?
  - Sim.
  - É uma voz que só se usa com quem se tem intimidade.
  - Shum?
  - O quê?
  - Talvez, um dia a gente possa se falar com as nossas vozes noturnas."

Livro: O único final feliz para uma história de amor é um acidente
Autor: João Paulo Cuenca

jueves, 18 de agosto de 2011

Scenic

    "Não posso dizer que as coisas entre mim e Alicia começaram a correr mal. Só que deixaram de ser tão boas. Não sei bem explicar porquê. Simplesmente um belo dia acordei e já não sentia o mesmo. Não gostava de não sentir o mesmo, porque aquele sentimento era bom, e sem ele sentia-me vazio, mas tinha desaparecido e não havia nada que eu pudesse fazer para o recuperar. Ainda tentei fingir que estava tudo na mesma, mas parecia-me que só o facto de tentar piorava a situação.
   Para onde tinha ido? Era como se tivesse havido imensa comida no nosso prato e nós a tivéssemos comido tão depressa que não sobrara nada. Talvez fosse assim que os casais sobrevivem: evitando ser gananciosos. Sabendo que o que têm no prato terá de durar muito tempo, tentando debicar a comida. Espero que não seja assim. Espero que, quando duas pessoas são felizes juntas, seja comose alguém lhes trouxesse segundas e terceiras doses de comida."

Livro: Slam
Autor: Nick Hornby


miércoles, 3 de agosto de 2011

Foram tantas as tormentas


   "Como o tio Victor me dissera num dia já longínquo, uma conversa assemelha-se a lançar e apanhar uma bola de baseball com alguém. Um bom parceiro atira a bola directamente para a nossa luva, de modo que é quase impossível nós não a apanharmos; quando somos nós a atirar a bola, esse parceiro apanha tudo o que nós lhe mandamos -mesmo os lançamentos mais transviados e incompetentes. Era exactamente isso que Kitty fazia. Lançava sempre a bola direitinha para a cova da minha luva, e, quando era eu a atirar-lhe a bola, não havia nada que ela não apanhasse: saltava para interceptar bolas que passavam muito acima da sua cabeça; mergulhava com agilidade, fosse para a esquerda, fosse para a direita; ou investia sem medo para apanhar bolas mesmo antes de caírem ao chão. Melhor ainda: a sua arte era tão perfeita, que me fazia sempre sentir que eu lançara mal as minhas bolas de propósito, como se o meu único objectivo fosse tornar o jogo mais divertido. Kitty fazia-me parecer melhor do que eu era, e isso fortalecia a minha confiança, o que, por sua vez, me ajudava a lançar-lhe bolas mais fáceis de apanhar. Por outras palavras: eu comecei a falar com ela, e não comigo mesmo, e o prazer que isso me dava era uma experiência única, incomparável, algo que eu não vivia havia muitos anos."

Livro: Palácio da lua
Autor: Paul Auster

sábado, 16 de julio de 2011

Contos

   "Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, mas longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada sem saltar nada."
Livro: Contos de Eva Luna
Autora: Isabel Allende

lunes, 11 de julio de 2011

Relógio



   "Para me sentir menos só pus-me a olhar para o mostrador do meu relógio. Eram sete menos dez. Muito tempo depois, para aí umas duas ou três horas, eram sete menos cinco."

Livro: Relato de un naúfrago
Autor: Gabriel García Márquez

viernes, 24 de junio de 2011

Refúgio


   "... e para que servia um lar se um cão não se sentia seguro nele, se um cão era tratado como um pária precisamente no local que deveria ser o seu refúgio? Não estava certo encerrar uma alma numa caixa escura. Era isso que faziam depois de morrermos; mas enquanto estivéssemos vivos, enquanto houvesse en nós um resto que fosse de vida, tínhamos o dever -perante nós mesmos e perante tudo o que havia de sagrado neste mundo- de não nos vergarmos a tais indignidades. Estar vivo significava respirar; respirar significava ar livre; e ar livre significava tudo menos ..."

Livro: "Timbuktu"
Autor: Paul Auster

sábado, 11 de junio de 2011

Spanish Evolution










   "O mais absoluto desespero pode coexistir com a mais fascinante criatividade; a entropia e o florescimento andam a par. Como já nos resta tão pouco, não deitamos nada fora, e as pessoas acabam por dar um novo uso a determinados materiais que, outrora, desprezavam como lixo. Tudo isto tem a ver com um novo modo de pensar. A penúria obriga a mente a soluções inovadoras, e damos por nós dispostos a alimentar ideias que, anteriormente, nunca nos teriam ocorrido."

Livro: No país das últimas coisas
Autor: Paul Auster

martes, 7 de junio de 2011

Esplendor de Portugal


   "A labuta prosseguiu, mas dolorosa e veloz, até que a buza da Fábrica Grande, qual sineta de alarme, pôs em debandada os garotos. Enquanto uns se estenderam de borco na margem do río, outros, que moravan longe, correram para casa, tão depressa quanto lhes permitiam as pernas trôpegas.
    Dorido, a coxear, Gaitinhas foi ao canto do forno, onde deixara o saquitel de pão com azeitonas; mas o almoço tinha levado sumiço. Procurou em redor; mirou a comida dos companheiros, sentados à sombra. Depois, fitando o chão, acocorou-se também com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos.
    Sagui apareceu, todo besuntado de lama.  - Não comes, Gaitinhas?
    - Roubaram-me a saca...
    - Já espreitaste aqueles gajos ali?
    - Já, pois. Mas são tantos a comer pão e azeitonas...
    - Deixa. Eu reparto contigo. "

Livro: "Esteiros"
Autor: Soeiro Pereira Gomes

martes, 31 de mayo de 2011

Indignação



"Podiam cortar-lhes as mãos e eles continuavam -usavam as próteses para desenharem o seu nome na areia. Podiam enforcá-los e a resposta que eles davam ao mundo no seu derradeiro momento era uma orgulhosa erecção (os homens, as mulheres talvez uma secreção) -seguida de um esguincho de fezes, a sugerir que se estavam borrifando para esta merda."

Livro: "O destino turístico"
Autor: Rui Zink

domingo, 8 de mayo de 2011

Dia "I"


   "Ninguém compreendeu como, por exemplo, todas as 387 silhuetas do Toro de Osborne repartidas pela Red de Carreteras Nacionales, da Corunha a Girona, de Santander a Huelva, de Gasteiz a Mijas, até em Lanzarote e Menorca, amanheceram com um garrafal `i´ pintado no lombo".

Livro: Iberiana
Autor: João Lopes Marques

lunes, 2 de mayo de 2011

Fruto proibido


   "Pedro disse que se a Senhora Pinheiro apanhasse uma criança a roubar os seus pêssegos ela lhe bateria com uma vara de metal e o atiraria para as urtigas. Disse que uma vez, há muito tempo, ela tinha batido num rapaz com tanta força que ele tinha ficado com o cérebro sacudido e depois disso já não sabia falar português, só espanhol, por ser tão estúpido. Jay sabia que isso era uma piada, mas a primeira vez que a Senhora Pinheiro o tinha apanhado a roubar tinha tido tanto medo que tinha urinado -só um pouco- nas calças."

Livro: Alentejo blue
Autor: Monica Ali  

sábado, 30 de abril de 2011

Reservas


   "Toda a gente diz que eu deixo as pessoas doidas -especialmente a minha mulher. Eu nunca lhe digo que ela está um espanto, uma beleza, um espectáculo ou simplesmente bonita (nem mesmo quando acho que está). Não, em vez disso, digo-lhe que está `bem´. Ela responde que `bem´está a mãe dela. Eu digo-lhe que `bem´ é bom -é óptimo. Para mim, pelo menos, é bom. Imaginem que um dia ela está mesmo um espectáculo e que, no dia seguinte, ainda está melhor! Se lhe digo que está um espectáculo, fico sem nada de reserva. E uma pessoa precisa sempre de ter qualquer coisa de reserva".

Livro: Pensei que o meu pai era deus.
Autor: Paul Auster.

jueves, 28 de abril de 2011

Agujeros de la memoria


   "El poeta Juan Gelman escribió hace años con su habitual sabiduría que `en la memoria hay palabras que no se pueden decir. Duran y hacen mal y bien, como un caballo loco´.
   Agregemos, ahora de nuestra cosecha, que el caballo loco aprovecha los agujeros de la memoria para fugarse y a veces refugiarse en la guarida del infinito.
   Nos pasamos la vida creando y perdiendo memoria. Como el pasado, a medida que pasan los años, crece en espacio, lo recordado también debería crecer. Sin embargo, gracias al trabajo tenaz del olvido, el pasado se va reduciendo y apenas nos deja unas pocas señales para que sepamos quiénes fuimos y también quiénes somos.
   Los agujeros de nuestra memoria también nos permiten atisbar a otras memorias, que a su vez nos atisban desde sus propios agujeros.
   Después de todo, el que sigue creciendo es el infinito y por eso no tiene fin."

Libro: Vivir adrede
Autor: Mario Benedetti

miércoles, 27 de abril de 2011



   "Toda a gente quer fazer amor à beira-mar, coberta de espuma, ao som do choro das gaivotas, mas nem sempre é uma maravilha. A areia pode meter-se no fato de banho, a àgua pode sabotar a lubrificação da rapariga, salgando-lhe os lábios como se fossem caras de bacalhau, ou ser tão fria que obrigue os tomates ao recolher obrigatório, deixando a erecção entregue a si própria, tornando um pau febril numa pilinha congelada, dura mas insensível, imitação pobre do `rigor mortis´.  
   Em contrapartida, depois de um bom jantar numa tasquinha escondida na floresta, dobrar um guardanapo bem engomado, enquanto se olha para o amor da nossa vida, pode ser o paraíso."

Livro: A vida inteira
Autor: Miguel Esteves Cardoso

lunes, 25 de abril de 2011

Espelhos


   "Olha-se na montra de uma livraria. Sessenta anos. Alto. Grisalho. O nariz aquilino, o rostro magro. `Merda´, vê-se obrigado a concluir. Perscruta o reflexo dos seus próprios olhos no vidro. Uma namorada que teve em jovem costumava troçar da sua mania de se olhar nas montras. Nem a ela, nem a nenhuma das outras mulheres que passaram pela sua vida, chegou Chaparro a confessar a verdade: o seu hábito de se olhar ao espelho não tem nada que ver com adorar-se ou gostar de si. Sempre foi nada mais nada menos que uma nova tentativa de saber quem raio vem ele próprio a ser."

Livro: O segredo dos seus olhos
Autor: Eduardo Sacheri

domingo, 24 de abril de 2011

Esperanças e utopias


   "Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."

Livro: O Caderno
Autor: José Saramago

domingo, 17 de abril de 2011

Iberiana




"Usei e abusei do altar que Eduard improvisara no estábulo secreto da sua casa. Nessas primeiras semanas em Tbilissi nem ousei sair à rua: menos por cobardia do que pela fadiga que naqueles longos meses de viagem se apoderara do esqueleto do Redentor. Fragilizado, triunfava quase sempre uma copiosa vontade de chorar; somente a reclusão para tentar descodificar esta insondável barbárie do homen".

Livro: Iberiana
Autor: João Lopes Marques

viernes, 11 de marzo de 2011

Japão


"Queres saber o que me parece? Pois bem, parece-me que a maioria das pessoas vive a pensar que a vida e o mundo (e o diabo a sete) são, tirando algumas excepções, fundamentalmente lógicos e coerentes (ou deveriam sê-lo). Cheguei muitas vezes a esta conclusão falando com os que me rodeiam. Quando acontece alguma coisa, seja no terreno social ou no plano individual, há sempre alguém que diz: 'Ah, isto aconteceu porque aquilo eram assim e assado...´, e quase sempre estão todos de acordo e respondem: `Ah, pois claro, é verdade, é verdade...´ E isto é uma coisa que não me entra na cabeça. Dizer coisas do género `aconteceu isto por causa daquilo´e `por isso aconteceu o que aconteceu´não explica nada. É como meter um chawan mushi instantâneo dentro do microondas, carregar no botão e, quando soa o `tin´, abrir a porta, tirar a tampa e verificar que o prato que escolheste está pronto! Quer dizer, o que é que aconteceu entretanto debaixo da tampa? Pode muito bem ter acontecido que o chawan mushi instantâneo primeiro se tenha convertido em macarrão gratinado com queijo e só depois passado a ser chawan mushi sem que ninguém desconfiasse de nada."

Livro: Crónica do Pássaro de Corda
Autor: Haruki Murakami

martes, 1 de marzo de 2011

Viento fuerte



" - El pájaro sube y baja la cabeza y se ajusta a la oscilación de la rama. La próxima vez que sople un viento fuerte observa bien a los pájaros. Yo me paso mucho tiempo mirando por la ventana. ¿No te parece que debe de ser agotadora una vida así? Vivir moviendo el cuello a cada oscilación de la rama en la que estás posado. Pero los pájaros están acostumbrados. Para ellos eso es lo más natural. Pueden hacerlo sin ser conscientes de ello. Por eso no les resulta tan cansado como nos parece a nosotros. Pero yo soy un ser humano y, a veces, me canso.

   - ¿Está usted posada en una rama?

   - Según como lo mires -dice-. Y, a veces, sopla un viento fuerte."

Libro: Kafka en la orilla
Autor: Haruki Murakami

sábado, 26 de febrero de 2011

Arca de Noé



"- Adorava fumar uma a curtir a Southern Cross.
 - O que é isso? Uma organização não-governamental? -quis certificar-se Birgiitt.
 - Estás-te a passar! É uma constelação que só consegues ver no hemisfério sul! É por  
   causa dela que a bandeira portuguesa tem cinco quinas!
 - Uau!
 - Mas Saturno também me dá tesão, deve ser por causa dos anéis.

   Evidente que versaram matérias suplementares, mas não demasiadas, foi também nessa madrugada que se percebeu que o Zé Manel se iria chamar "Manu" daqui para a frente, escapatória não havia:
- Me gusta marihuana, me gustas tu... Me gusta marihuana, me gustas tu...

  Mesmo sendo o êxito daquele Verão finimilenar, a cantilena não desenvolvia, não passava dali, Birgitt dera o mote e assim ficariam pedrados a ver a espuma das ondas, a Lua encarregava-se de a iluminar. Mais un dia e estaria cheia, cenário ideal para, na sua trip vicentina, Manu fantasiar con um tsunami, com um vagalhão que engolisse não só o rectângulo como o resto do planeta, e que num pestanejar fôssemos todos àgua, até porque foi ali que se multiplicou a vida, da primeira célula, pois."

Livro: "Terra Java"
Autor: João Lopes Marques

jueves, 24 de febrero de 2011

Metáfora



   "A palavra metáfora, que significa transportar alguma coisa de um local para outro, tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer de um local para outro e outra que quer dizer transportar e consiste em descrever alguma coisa utilizando uma palavra que não corresponde a essa coisa. Isto significa que a palavra metáfora é uma metáfora.
   Acho que devia chamar-se uma mentira, porque as pessoas não rebentam a rir e não têm telhados de vidro. E quando tento visualizar a frase na minha cabeça, isso só me confunde, porque imaginar uma menina nos olhos de alguém não tem nada a ver com gostar muito de uma pessoa e faz com que nos esqueçamos do que a pessoa estava a dizer.
  O meu nome, Christopher, é uma metáfora. Significa transportar Cristo e tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer Jesus Cristo e outra que foi o nome dado a S. Cristóvão porque ele atravessou um rio, carregando Jesus Cristo.
   Isto faz-nos pensar em como ele se chamaria antes de atravessar o rio, carregando Cristo. Mas ele não se chamava coisa nenhuma pois esta é uma história apócrifa, o que significa que também é uma mentira".

Livro:  "O estranho caso do cão morto"
Autor: Mark Haddon

miércoles, 23 de febrero de 2011

Era uma vez...


" Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos de ficção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas. Daí o êxito dos viagaristas hábeis no falar.
   Sem sequer ter pensado nisso, eu acabara por me tornar para eles uma fazedora de ilusões. Uma espécie de fada, como dizia a vizinha.
   As minhas narrações de filmes arrancavam-nos àquele nada acre que era o deserto e, ainda que fosse só por um bocadilho, transportavam-nos para mundos maravilhosos, plenos de amores, de sonhos e aventuras. Ao contrário do que acontecia vendo-os projectados num ecrã de cinema, nas minhas narrações cada qual podía imaginar esses mundos à sua vontade.
   Li em qualquer parte, ou vi num filme, que, quando os judeus eram transportados pelos alemães naqueles vagões de gado fechados -só com uma ranhura na parte de cima para deixar entrar um pouco de ar-, enquanto atravessavam as campinas com cheiro a erva húmida, escolhiam entre si o melhor narrador e, fazendo-o trepar sobre os ombros, içavam-no até à ranhura para que lhes fosse descrevendo a paisagem e contado o que via à passagem do comboio.
   Agora estou convencida de que devia haver muitos, entre eles, que preferiam imaginar aquelas maravilhas contadas por um companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura com os seus próprios olhos".

Livro: "A contadora de filmes"
Autor: Hernán Rivera Letelier

martes, 22 de febrero de 2011

Dalton



"Era uma vez um camaleão que não tinha jeito para as cores, aliás era mesmo daltónico. Sempre que era preciso mudar, mudava para a cor errada. Isto trazia muitas complicações e perigos, tanto para si como para o seu bando de camaleões, que já nem o podiam ver nem castanho, nem verde, nem amarelo, não o podiam mesmo ver a certa altura, porque ele era demasiado visível!, sempre mal camuflado... empurrando o pobre do Dalton para uma triste solidão. É que ele não acertava nunca, por ser daltónico e também trapalhão. Um dia, ao regressar com outros camaleões ao seu arbusto, duma festa de casamento onde tinham comido muito bem e bebido melhor, sopa de moscas azuis, a rara aranha da areia que só tem seis olhos como prato principal (não se come o veneno), soufflé de mosquito, pudim de formiga voadora, tudo regado com suco fermentado de gafanhoto... o Dalton vinha triste da festa porque casara a Maria Colorida, tão bonita, a camaleoa com a pele mais áspera do Algarve..."

Livro: Deixem passar o homem invisível
Autor: Rui Cardoso Martins

sábado, 19 de febrero de 2011

Fome



"Beijei-o e voltei a beijá-lo. Depois, impulsivamente, com a ponta da língua comecei a lamber a tinta da assinatura, com a paciência do gato que bebe o leite da tigela lambi tudo até ter desaparecido o "O", o "l", o "i", o "v", o segundo "i", o "a" -lambi até ter desaparecido por completo a cauda ascendente. Tinha bebido a caigrafia dela. Tinha-lhe comido o nome. Tinha feito um enorme esforço para não comer a carta toda".

Livro: Indignação
Autor: Philip Roth

lunes, 14 de febrero de 2011

14 de Fevereiro



"Somos todos mais inteligentes do que aparentamos e ter consciência da insanidade do amor nunca salvou ninguém da doença."

Livro: Ensaios de amor
Autor: Alain de Botton

miércoles, 9 de febrero de 2011

Clandestinos e contentes


"O teu amor mais o meu
e a cegada das silvas
a tarde raiava no fim
mas já tarde para a praia

Baixinho era o sol descia
passou um bicho que jamais esqueço
nos dias mais grandes e
confiados de miúdos

Ó camandro de paisagem
onde se vai esconder a gente?"

Livro: As junções
Autor: Hugo Milhanas Machado

Distância

"É estranho como os traços mais irritantes das pessoas que amamos se podem tornar encantadores quando já não estão presentes, quando elas, essas pessoas, já não estão presentes".

Livro: O grito da preguiça
Autor: Sam Savage