sábado, 30 de abril de 2011

Reservas


   "Toda a gente diz que eu deixo as pessoas doidas -especialmente a minha mulher. Eu nunca lhe digo que ela está um espanto, uma beleza, um espectáculo ou simplesmente bonita (nem mesmo quando acho que está). Não, em vez disso, digo-lhe que está `bem´. Ela responde que `bem´está a mãe dela. Eu digo-lhe que `bem´ é bom -é óptimo. Para mim, pelo menos, é bom. Imaginem que um dia ela está mesmo um espectáculo e que, no dia seguinte, ainda está melhor! Se lhe digo que está um espectáculo, fico sem nada de reserva. E uma pessoa precisa sempre de ter qualquer coisa de reserva".

Livro: Pensei que o meu pai era deus.
Autor: Paul Auster.

jueves, 28 de abril de 2011

Agujeros de la memoria


   "El poeta Juan Gelman escribió hace años con su habitual sabiduría que `en la memoria hay palabras que no se pueden decir. Duran y hacen mal y bien, como un caballo loco´.
   Agregemos, ahora de nuestra cosecha, que el caballo loco aprovecha los agujeros de la memoria para fugarse y a veces refugiarse en la guarida del infinito.
   Nos pasamos la vida creando y perdiendo memoria. Como el pasado, a medida que pasan los años, crece en espacio, lo recordado también debería crecer. Sin embargo, gracias al trabajo tenaz del olvido, el pasado se va reduciendo y apenas nos deja unas pocas señales para que sepamos quiénes fuimos y también quiénes somos.
   Los agujeros de nuestra memoria también nos permiten atisbar a otras memorias, que a su vez nos atisban desde sus propios agujeros.
   Después de todo, el que sigue creciendo es el infinito y por eso no tiene fin."

Libro: Vivir adrede
Autor: Mario Benedetti

miércoles, 27 de abril de 2011



   "Toda a gente quer fazer amor à beira-mar, coberta de espuma, ao som do choro das gaivotas, mas nem sempre é uma maravilha. A areia pode meter-se no fato de banho, a àgua pode sabotar a lubrificação da rapariga, salgando-lhe os lábios como se fossem caras de bacalhau, ou ser tão fria que obrigue os tomates ao recolher obrigatório, deixando a erecção entregue a si própria, tornando um pau febril numa pilinha congelada, dura mas insensível, imitação pobre do `rigor mortis´.  
   Em contrapartida, depois de um bom jantar numa tasquinha escondida na floresta, dobrar um guardanapo bem engomado, enquanto se olha para o amor da nossa vida, pode ser o paraíso."

Livro: A vida inteira
Autor: Miguel Esteves Cardoso

lunes, 25 de abril de 2011

Espelhos


   "Olha-se na montra de uma livraria. Sessenta anos. Alto. Grisalho. O nariz aquilino, o rostro magro. `Merda´, vê-se obrigado a concluir. Perscruta o reflexo dos seus próprios olhos no vidro. Uma namorada que teve em jovem costumava troçar da sua mania de se olhar nas montras. Nem a ela, nem a nenhuma das outras mulheres que passaram pela sua vida, chegou Chaparro a confessar a verdade: o seu hábito de se olhar ao espelho não tem nada que ver com adorar-se ou gostar de si. Sempre foi nada mais nada menos que uma nova tentativa de saber quem raio vem ele próprio a ser."

Livro: O segredo dos seus olhos
Autor: Eduardo Sacheri

domingo, 24 de abril de 2011

Esperanças e utopias


   "Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."

Livro: O Caderno
Autor: José Saramago

domingo, 17 de abril de 2011

Iberiana




"Usei e abusei do altar que Eduard improvisara no estábulo secreto da sua casa. Nessas primeiras semanas em Tbilissi nem ousei sair à rua: menos por cobardia do que pela fadiga que naqueles longos meses de viagem se apoderara do esqueleto do Redentor. Fragilizado, triunfava quase sempre uma copiosa vontade de chorar; somente a reclusão para tentar descodificar esta insondável barbárie do homen".

Livro: Iberiana
Autor: João Lopes Marques