sábado, 23 de marzo de 2013

Despertares



     "Cão obcecado. Tarado sexual, digo eu. Apaixonado, corrige a minha filha. Começou na praia, com uma cadela rafeira. Foi para ele uma iniciadora, misto de amante, mãe, irmã e puta. Passou as férias em cima dela. A cadela deixava, sem grande entusiasmo, mas dir-se-ia que com ternura e compreensão. Ou compaixão. Parecia muito velha para ter filhos, mas uns tempos depois apareceram uns rafeiros malhados do Kurika. Ou vice-versa.

     Todos os Verões ele se apaixonava. Então ficava de nariz colado à porta da entrada. Abria-se a porta e ficava marrado em frente da casa da favorita. Gemia de amor, aquele cão Romeu qeu queria estar o mais perto possível da sua Julieta. 

     Às tantas desaparecia. Voltava passados dois ou três dias, mais morto que vivo, a cheirar a cadela e ao pó dos caminhos.

     Eram amores de praia, intensos e passageiros."

Livro: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre

jueves, 14 de marzo de 2013

Irresignação



    -Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.

     O coronel não mexeu um músculo.

   -Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.

   -Nada mais do que um filho morto.

    O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.

   -Cumprimos o nosso dever  -disse ele.

   -E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos  -replicou a mulher.  -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.

   -Mas está a morrer de diabetes  -contrapôs o coronel.

   -E tu estás a morrer de fome  -retorquiu a mulher.  -Para que te convenças de que a dignidade não se come.

Livro: Ninguém escreve ao Coronel
Autor: Gabriel García Márquez

jueves, 7 de marzo de 2013

Invierno




     "Piensas que nunca te va a pasar, imposible que te suceda a ti, que eres la única persona del mundo a quien jamás ocurrirán esas cosas, y entonces, una por una, empiezan a pasarte todas, igual que le suceden a cualquier otro."

Libro: Diario de invierno
Autor: Paul Auster

lunes, 4 de marzo de 2013

Sair da rotunda



   "Nem sempre Aaronson esteve morto.  
    Num certo período, Aaronson foi mesmo, sem exagero, um ser vivo.
    Entre os vinte e sete e os trinta anos Aaronson circulava -como um insecto obcecado- em torno de uma rotunda.
    Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade. rotunda onde desembocaba sessenta por cento do tráfego.
    Às sete da manhã o fumo dos automóveis era menor do que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem dava centenas de voltas à rotunda. Aaronson.
    Qualquer hábito, qualquer repetição de um acto por mais absurdo que seja, rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas; em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruoso e o informe se faça normalidade e hábito. No limite: facto a que não se dá atenção, paisagem.
    Entre as sete e as sete e meia, os automobilistas que por hábito passavam pela rotunda já sabiam que, também por hábito, um homem, vestido a rigor com calções e camisola de atleta, circulava por ali. Centenas e centenas de vezes em redor da mesma rotunda, como um carro que não soubesse o caminho, que hesitasse entre seguir por uma direcção ou outra; que se deixasse estar por ali, à roda, não arriscando, não tomando uma opção. Enquanto estiver na rotunda não estou perdido, pelo menos não volto atrás. E eis um dos atractivos daquela circulação, circulação quase infinita não fora ela terminar com exactidão às trezentas voltas: em redor de uma rotunda ningém volta atrás, ninguém se engana, ninguém tem de assumir o erro e fazer inversão de marcha. A vida, apesar de tudo, é fácil. Numa rotunda.
    Ninguém gosta de ser humilhado e Aaronson (se fosse um automóvel) pelo menos não entrava na estrada errada. Trezentas voltas para ganhar balanço e depois o regresso a casa. Não arrisques! -parecia alguém dizer-lhe ao ouvido.
    Falemos brevemente da rotunda: uma circunferência perfeita. Diâmetro: impossível saber ao certo, mas era exacto -um número sem arredondamentos.
    Aaronson entre os vinte e sete e os trinta anos, no período em que corria entre as sete e as sete e meia da manhã à volta da rotunda principal da cidade, foi considerado apenas um louco previsível -o que é ser metade de um louco pois a previsibilidade divide o perigo em dois.
    Alguns dias depois de fazer trinta anos deixou, no entanto, de fazer a sua corrida na rotunda.
    Deixaram de o ver. E deixaram de o ver porque Aaronson morreu. E a cidade envergonha-se tanto de um corpo morto que, no máximo, numa hora, o corpo desaparece. Se alguém quiser ver o corpo morto que se dirija pois ao sítio em causa, naquele período mínimo em que o morto está morto em plena cidade."

Livro: Matteo perdeu o emprego.
Autor: Gonçalo M. Tavares