jueves, 14 de marzo de 2013

Irresignação



    -Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.

     O coronel não mexeu um músculo.

   -Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.

   -Nada mais do que um filho morto.

    O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.

   -Cumprimos o nosso dever  -disse ele.

   -E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos  -replicou a mulher.  -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.

   -Mas está a morrer de diabetes  -contrapôs o coronel.

   -E tu estás a morrer de fome  -retorquiu a mulher.  -Para que te convenças de que a dignidade não se come.

Livro: Ninguém escreve ao Coronel
Autor: Gabriel García Márquez

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