-Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.
O coronel não mexeu um músculo.
-Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.
-Nada mais do que um filho morto.
O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.
-Cumprimos o nosso dever -disse ele.
-E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos -replicou a mulher. -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.
-Mas está a morrer de diabetes -contrapôs o coronel.
-E tu estás a morrer de fome -retorquiu a mulher. -Para que te convenças de que a dignidade não se come.
Autor: Gabriel García Márquez

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