miércoles, 31 de octubre de 2012

Indignação




"A popular actriz brasileira Maité Proença fez pouco dos portugueses num vídeo realizado durante uma recente visita a Portugal e decidiu que os habitantes locais eram "estranhos". A blogosfera portuguesa zumbiu de indignação. Parte do problema, nessa altura, residia no facto de o Brasil, uma das vibrantes economias emergentes do mundo, se ter tornado forte e confiante, enquanto Portugal enfraquecera e se sentia inseguro. Houve uivos em Lisboa sobre um acordo linguístico entre os governos dos países lusófonos para padronizarem a grafia das palavras. A ideia foi eliminar variações linguísticas regionais que causavam dificuldades nos contratos legais, pesquisas na Internet e coisas desse género. Apesar de ser o berço da língua, Portugal (pop. 10,6 milhões) acabou por adoptar mais versões usadas no Brasil (pop. 190 milhões) do que o contrário. De facto, três quartos das mudanças couberam a Portugal. A muita gente pareceu que a cauda é que estava a abanar o cão."
 
Livro: Os Portugueses
Autor: Barry Hatton

viernes, 19 de octubre de 2012

Merda




-Estou?
-Sim, olá, sou eu.
-Não, acordámos já há umas horas, tenho estado aqui com ele na brincadeira.
-Sim, hoje está a correr bem.
-Já sabes que é preciso estimulá-lo, ele não dá nada de graça.
-Agora? Está a ver uns desenhos.
-Ó Rogério, é só uma meia hora.
-Até que me recomponha.
-Eu sei que combinamos que não haveria desenhos.
-Mas eu tenho necessidade de ter um momento para mim durante o dia todo.
-Ou pensas que é fácil estar aqui a estimulá-lo durante dez horas de seguida?
-As terapeutas, ah, ah, ah, ah, ah.
-As terapeutas vêm uma hora por dia e não é todos os dias.
-Quem é que achas que toma conta do barco quando elas não estão?
-As vezes tenho a sensação de que não vês o óbvio e de que não me dás o devido valor.
-Eu estou calma, Rogério, eu estou muito calma, para aquilo que me tens estado a dizer.
-Ou melhor, a acusar.
-Queres trocar?
-Queres vir tu para casa, que eu vou trabalhar?
-Queres vir tu reinventar-te de dez em dez minutos para te assegurares de que estás a fazer tudo quanto é humanamente possível para chegar a ele?
-Não me venhas com a conversa de que eu chego melhor a ele do que tu.
-Isso é uma conversa de merda.
-É uma justificação de merda.
-Eu não quero ouvir essa merda.
-E depois? Ele não fala!
-Estás com medo de que a primeira palavra que ele diga seja merda?
-Quem me dera que fosse merda!
-Eu passava horas e dias a repeti-lo, se ele dissesse um dia, merda, merda, merda, merda.
-Ouviste?
-Estás escandalizado?
-Eu estou calma.
-Eu estou calma, Rogério, tu é que me tiras do sério.
-Vou desligar, não estou para te aturar.
-Porquê?
-Porquê é que havia de te dar ouvidos?
-Não, Rogério, isto não é a três, é a dois.
-Estás enganado, só participa quem cá está.
-Ouviste?
-Não penses que entras no projecto só porque avanças com algum dinheiro.
-Eu estou sozinha com ele o dia todo, ouviste?
-Não sabes o que é isso.
-Sozinha a tentar que ele diga qualquer coisa.
-Que faça um xixi, um xixi somente na casa de banho.
-Já nem queria que fosse na sanita.
-Podía ser na tijoleira da casa de banho, que eu beijava-o todo.
-Um só que fosse, Rogério.
-Sabes o que é ter isso como máximo objectivo?
-Claro que sabes.
-Aí desse lado deve ser fácil saber tudo.
-Olha, eu vou desligar, Rogério.
-Não quero interromper o desenrolar do teu valiosíssimo contributo.
-Não, vai trabalhar, que eu vou fazer o mesmo.
-Não te preocupes com a gente, ficamos bem.
-Já o vou trazer para o quarto para brincarmos.
-Já consegui descontrair, graças a ti.
-A tua imprestabilidade é inestimável, Rogério.
-Qual cinismo?
-Deixa-te de merdas.
-Pois desliga.
-Estás a vontade para desligar.
-Idiota.
-Idiota chapado.


Anda amor, anda com a mãe.
Vamos brincar?
O que queres fazer?
Vamos brincar com os carros?
Diz carro
C-A-R-R-O
Vá, diz lá só uma vez
C-A-R-R-O
Tú já disseste uma vez, há tempos
Lembras-te, amor?
Olha para mim
Olha para mim, Henrique, pára de rodar isso
Diz qualquer coisa para a mamã
Diz qualquer coisa, só para a gente saber que vale a pena
Que ainda estamos aqui vivos
E que isto ainda quer dizer qualquer coisa
Porra, Henrique, merda!
Olha, diz merda
Diz M-E-R-D-A
Para o teu paizinho
Diz-lha cuando ele meter a chave à porta e te viar dar um beijo
E se esquecer
Como sempre esquece
De me dar um a mim.


Livro: Autismo
Autor: Valério Romão

lunes, 8 de octubre de 2012

No es lo único



"-Ya sé que estoy enfermo. Pero no es lo único que estoy. Uno no está todo el tiempo con eso en la cabeza. O yo no estoy. No sé los demás. Pero yo no. No puedo estar dándome máquina veinticuatro horas al día. ¿O ustedes están todo el día pensando en lo mismo? Yo no, ni en pedo. No puedo estar todo el día meta y meta dándome manija con el cáncer, boludo. De si me dijeron esto, o me dijeron lo otro, de si me hace mal este tratamiento, de si mejor hago el otro, de si los análisis me dieron mejor o me dieron para el orto, de si le doy bola al oncólogo o le doy bola al clínico, o le doy pelota al que me hizo la última tomografía y me recomendó lo que mierda sea. ¿No se dan cuenta? No puedo estar todo el día pensando en eso. Hace seis meses me dijeron que tenía cáncer y que estaba al horno con papas. Bueno. Pero yo sigo vivo.

 - Por suerte, Monito...

 - No, Ruso, no me entendés. Cuando digo que sigo vivo no estoy con la sanata pelotuda de que sigo luchando, de que sigo apostando por la vida y toda la boludez. Me refiero a que me siguen pasando cosas. A veces tengo hambre, a veces tengo ganas de coger, a veces tengo bronca, a veces quiero llamarla a Lourdes y decirle que es una hija de puta. Pero no bronca por estar enfermo. Digo bronca por lo que sea, ¿entienden? No es que me enfermé y me convertí en otro, boludo. Sigo siendo yo."

- ...
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