viernes, 19 de octubre de 2012
Merda
-Estou?
-Sim, olá, sou eu.
-Não, acordámos já há umas horas, tenho estado aqui com ele na brincadeira.
-Sim, hoje está a correr bem.
-Já sabes que é preciso estimulá-lo, ele não dá nada de graça.
-Agora? Está a ver uns desenhos.
-Ó Rogério, é só uma meia hora.
-Até que me recomponha.
-Eu sei que combinamos que não haveria desenhos.
-Mas eu tenho necessidade de ter um momento para mim durante o dia todo.
-Ou pensas que é fácil estar aqui a estimulá-lo durante dez horas de seguida?
-As terapeutas, ah, ah, ah, ah, ah.
-As terapeutas vêm uma hora por dia e não é todos os dias.
-Quem é que achas que toma conta do barco quando elas não estão?
-As vezes tenho a sensação de que não vês o óbvio e de que não me dás o devido valor.
-Eu estou calma, Rogério, eu estou muito calma, para aquilo que me tens estado a dizer.
-Ou melhor, a acusar.
-Queres trocar?
-Queres vir tu para casa, que eu vou trabalhar?
-Queres vir tu reinventar-te de dez em dez minutos para te assegurares de que estás a fazer tudo quanto é humanamente possível para chegar a ele?
-Não me venhas com a conversa de que eu chego melhor a ele do que tu.
-Isso é uma conversa de merda.
-É uma justificação de merda.
-Eu não quero ouvir essa merda.
-E depois? Ele não fala!
-Estás com medo de que a primeira palavra que ele diga seja merda?
-Quem me dera que fosse merda!
-Eu passava horas e dias a repeti-lo, se ele dissesse um dia, merda, merda, merda, merda.
-Ouviste?
-Estás escandalizado?
-Eu estou calma.
-Eu estou calma, Rogério, tu é que me tiras do sério.
-Vou desligar, não estou para te aturar.
-Porquê?
-Porquê é que havia de te dar ouvidos?
-Não, Rogério, isto não é a três, é a dois.
-Estás enganado, só participa quem cá está.
-Ouviste?
-Não penses que entras no projecto só porque avanças com algum dinheiro.
-Eu estou sozinha com ele o dia todo, ouviste?
-Não sabes o que é isso.
-Sozinha a tentar que ele diga qualquer coisa.
-Que faça um xixi, um xixi somente na casa de banho.
-Já nem queria que fosse na sanita.
-Podía ser na tijoleira da casa de banho, que eu beijava-o todo.
-Um só que fosse, Rogério.
-Sabes o que é ter isso como máximo objectivo?
-Claro que sabes.
-Aí desse lado deve ser fácil saber tudo.
-Olha, eu vou desligar, Rogério.
-Não quero interromper o desenrolar do teu valiosíssimo contributo.
-Não, vai trabalhar, que eu vou fazer o mesmo.
-Não te preocupes com a gente, ficamos bem.
-Já o vou trazer para o quarto para brincarmos.
-Já consegui descontrair, graças a ti.
-A tua imprestabilidade é inestimável, Rogério.
-Qual cinismo?
-Deixa-te de merdas.
-Pois desliga.
-Estás a vontade para desligar.
-Idiota.
-Idiota chapado.
Anda amor, anda com a mãe.
Vamos brincar?
O que queres fazer?
Vamos brincar com os carros?
Diz carro
C-A-R-R-O
Vá, diz lá só uma vez
C-A-R-R-O
Tú já disseste uma vez, há tempos
Lembras-te, amor?
Olha para mim
Olha para mim, Henrique, pára de rodar isso
Diz qualquer coisa para a mamã
Diz qualquer coisa, só para a gente saber que vale a pena
Que ainda estamos aqui vivos
E que isto ainda quer dizer qualquer coisa
Porra, Henrique, merda!
Olha, diz merda
Diz M-E-R-D-A
Para o teu paizinho
Diz-lha cuando ele meter a chave à porta e te viar dar um beijo
E se esquecer
Como sempre esquece
De me dar um a mim.
Livro: Autismo
Autor: Valério Romão
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