"Cão obcecado. Tarado sexual, digo eu. Apaixonado, corrige a minha filha. Começou na praia, com uma cadela rafeira. Foi para ele uma iniciadora, misto de amante, mãe, irmã e puta. Passou as férias em cima dela. A cadela deixava, sem grande entusiasmo, mas dir-se-ia que com ternura e compreensão. Ou compaixão. Parecia muito velha para ter filhos, mas uns tempos depois apareceram uns rafeiros malhados do Kurika. Ou vice-versa.
Todos os Verões ele se apaixonava. Então ficava de nariz colado à porta da entrada. Abria-se a porta e ficava marrado em frente da casa da favorita. Gemia de amor, aquele cão Romeu qeu queria estar o mais perto possível da sua Julieta.
Às tantas desaparecia. Voltava passados dois ou três dias, mais morto que vivo, a cheirar a cadela e ao pó dos caminhos.
Eram amores de praia, intensos e passageiros."
Livro: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre

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