miércoles, 3 de agosto de 2011

Foram tantas as tormentas


   "Como o tio Victor me dissera num dia já longínquo, uma conversa assemelha-se a lançar e apanhar uma bola de baseball com alguém. Um bom parceiro atira a bola directamente para a nossa luva, de modo que é quase impossível nós não a apanharmos; quando somos nós a atirar a bola, esse parceiro apanha tudo o que nós lhe mandamos -mesmo os lançamentos mais transviados e incompetentes. Era exactamente isso que Kitty fazia. Lançava sempre a bola direitinha para a cova da minha luva, e, quando era eu a atirar-lhe a bola, não havia nada que ela não apanhasse: saltava para interceptar bolas que passavam muito acima da sua cabeça; mergulhava com agilidade, fosse para a esquerda, fosse para a direita; ou investia sem medo para apanhar bolas mesmo antes de caírem ao chão. Melhor ainda: a sua arte era tão perfeita, que me fazia sempre sentir que eu lançara mal as minhas bolas de propósito, como se o meu único objectivo fosse tornar o jogo mais divertido. Kitty fazia-me parecer melhor do que eu era, e isso fortalecia a minha confiança, o que, por sua vez, me ajudava a lançar-lhe bolas mais fáceis de apanhar. Por outras palavras: eu comecei a falar com ela, e não comigo mesmo, e o prazer que isso me dava era uma experiência única, incomparável, algo que eu não vivia havia muitos anos."

Livro: Palácio da lua
Autor: Paul Auster

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