miércoles, 23 de febrero de 2011
Era uma vez...
" Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos de ficção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas. Daí o êxito dos viagaristas hábeis no falar.
Sem sequer ter pensado nisso, eu acabara por me tornar para eles uma fazedora de ilusões. Uma espécie de fada, como dizia a vizinha.
As minhas narrações de filmes arrancavam-nos àquele nada acre que era o deserto e, ainda que fosse só por um bocadilho, transportavam-nos para mundos maravilhosos, plenos de amores, de sonhos e aventuras. Ao contrário do que acontecia vendo-os projectados num ecrã de cinema, nas minhas narrações cada qual podía imaginar esses mundos à sua vontade.
Li em qualquer parte, ou vi num filme, que, quando os judeus eram transportados pelos alemães naqueles vagões de gado fechados -só com uma ranhura na parte de cima para deixar entrar um pouco de ar-, enquanto atravessavam as campinas com cheiro a erva húmida, escolhiam entre si o melhor narrador e, fazendo-o trepar sobre os ombros, içavam-no até à ranhura para que lhes fosse descrevendo a paisagem e contado o que via à passagem do comboio.
Agora estou convencida de que devia haver muitos, entre eles, que preferiam imaginar aquelas maravilhas contadas por um companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura com os seus próprios olhos".
Livro: "A contadora de filmes"
Autor: Hernán Rivera Letelier
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