Duarte imaginou que dentro do barbeiro Alcino, em virtude de alguma estranha patologia, se estava a criar, constantemente, uma quantidade de energia muito superior àquela de que o barbeiro Alcino precisava para fazer a sua simples vida de barbeiro. E aquele excedente de energia, por forma que o barbeiro Alcino não explodisse, era libertado pelas mãos, que funcionavam como uma espécie de válvulas de escape. Quando, por algum motivo de força maior, as mãos estavam impossibilitadas de desempenhar essa função, os lábios, situados no degrau imediatamente acima do sistema de segurança, entravam em funcionamento.
Se, porventura, o barbeiro Alcino segurasse uma tesoura ao mesmo tempo que fumava, por exemplo, começaria, eventualmente, a piscar os olhos ou a bater, descontroladamente, com os pés no chão.
Duarte imaginou o barbeiro Alcino com apenas dez anos: uma caligrafia horrível, uma incapacidade quase absoluta para se vestir, para abotoar os botões da camisa, para fazer o nó nos atacadores, para jogar ao berlinde, aos matraquilhos, snooker nem pensar, dominó, para mijar de pé, para transportar um copo de água desde a cozinha até à sala, para tirar uma única moeda da carteira sem as outras todas caírem ao chão. Os pais, claro está, preocupadíssimos com o futuro do seu filho Alcino. Até que, um dia, o vêem pegar numa tesoura e vislumbram, se não um milagre, pelo menos uma luz ao fundo do túnel: o filho será barbeiro, o melhor barbeiro do salão Playboy.
Duarte não tem certeza se o barbeiro Alcino é de facto o melhor barbeiro do salão Playboy, mas acredita que será, provavelmente, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. Mais: de terem assistido a um prodígio. Como certas pinturas que nos comovem não pelas suas qualidades estéticas, mas por sabermos, de antemão, que foram pintadas por crianças sem braços.
Livro: O teu rostro será o último
Autor: João Ricardo Pedro

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