lunes, 4 de marzo de 2013
Sair da rotunda
"Nem sempre Aaronson esteve morto.
Num certo período, Aaronson foi mesmo, sem exagero, um ser vivo.
Entre os vinte e sete e os trinta anos Aaronson circulava -como um insecto obcecado- em torno de uma rotunda.
Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade. rotunda onde desembocaba sessenta por cento do tráfego.
Às sete da manhã o fumo dos automóveis era menor do que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem dava centenas de voltas à rotunda. Aaronson.
Qualquer hábito, qualquer repetição de um acto por mais absurdo que seja, rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas; em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruoso e o informe se faça normalidade e hábito. No limite: facto a que não se dá atenção, paisagem.
Entre as sete e as sete e meia, os automobilistas que por hábito passavam pela rotunda já sabiam que, também por hábito, um homem, vestido a rigor com calções e camisola de atleta, circulava por ali. Centenas e centenas de vezes em redor da mesma rotunda, como um carro que não soubesse o caminho, que hesitasse entre seguir por uma direcção ou outra; que se deixasse estar por ali, à roda, não arriscando, não tomando uma opção. Enquanto estiver na rotunda não estou perdido, pelo menos não volto atrás. E eis um dos atractivos daquela circulação, circulação quase infinita não fora ela terminar com exactidão às trezentas voltas: em redor de uma rotunda ningém volta atrás, ninguém se engana, ninguém tem de assumir o erro e fazer inversão de marcha. A vida, apesar de tudo, é fácil. Numa rotunda.
Ninguém gosta de ser humilhado e Aaronson (se fosse um automóvel) pelo menos não entrava na estrada errada. Trezentas voltas para ganhar balanço e depois o regresso a casa. Não arrisques! -parecia alguém dizer-lhe ao ouvido.
Falemos brevemente da rotunda: uma circunferência perfeita. Diâmetro: impossível saber ao certo, mas era exacto -um número sem arredondamentos.
Aaronson entre os vinte e sete e os trinta anos, no período em que corria entre as sete e as sete e meia da manhã à volta da rotunda principal da cidade, foi considerado apenas um louco previsível -o que é ser metade de um louco pois a previsibilidade divide o perigo em dois.
Alguns dias depois de fazer trinta anos deixou, no entanto, de fazer a sua corrida na rotunda.
Deixaram de o ver. E deixaram de o ver porque Aaronson morreu. E a cidade envergonha-se tanto de um corpo morto que, no máximo, numa hora, o corpo desaparece. Se alguém quiser ver o corpo morto que se dirija pois ao sítio em causa, naquele período mínimo em que o morto está morto em plena cidade."
Livro: Matteo perdeu o emprego.
Autor: Gonçalo M. Tavares
miércoles, 20 de febrero de 2013
Sem maiúsculas
"porque a sua morte me aterroriza. não passa, américo, não passa. a morte dela não passa. o américo esperou uns segundos por que me acalmasse, procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida, um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido, tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de uma grande paixão.
esse era o segredo que só o tempo guardava. só o tempo revelaria tal milagre. o tempo, e a sensibilidade de quem via o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia."
Livro: a máquina de fazer espanhóis.
Autor: valter hugo mãe
domingo, 17 de febrero de 2013
Pornolectoras
"Sin corazón no se puede ir muy lejos. En los relatos mitológicos te lo pueden quitar todo, te pueden asesinar, descuartizar o quemar, pero siempre hay un truco para salvarse: basta con que no lleguen al corazón. Si acaban con el corazón, no hay resurrección posible. Sin corazón no hay inmortalidad. Por eso hay que cuidarlo muy bien. Alguien debe encargarse de él y guardarlo en un lugar seguro. El alma del poeta conquista su fin más elevado, la eternidad, gracias al sacrificio de una bella mujer que, al comerse el corazón de su amante, lleva a cabo un acto supremo de devoción hacia él. Acepta que la ha seducido hasta consumirla por completo."
Libro: Las buenas chicas no leen novelas
Autora: Francesca Serra
jueves, 14 de febrero de 2013
Resiliencia
"Para ese espíritu no había ni un poco de piedad e Bjartur. No importa cuan frecuentemente cayera de cabeza e los hondones, se levantaba enseguida, impávido y llevando con redoblada furia otro ataque, apretando los dientes y lanzando maldiciones a las aceradas fauces del demonio, decidido a no detenerse antes de que el maldito espíritu de Grímur hubiese sido perseguido hasta los más remotos rincones del infierno, hasta que la espada desnuda le hubiese traspasado y sus convulsiones de muerte comenzaran en una ronda de tierra y mar.
Una y otra vez se imaginó que había ultimado a Grímur y que lo había enviado aullando al infierno con las inmortales palabras del poeta, pero la tormenta de nieve seguía acometiéndole con furor no disminuido cuando llegó a la cima de la montaña siguiente, le arañó los ojos y trató de voltearle; gimió vengativamente en sus oídos, le tiró de los pelos de la barba... La lucha no había terminado en modo alguno; todavía combatía a brazo partido con los señores del infierno vomitadores de veneno, que arrasaban la tierra en furibunda malicia hasta que la bóveda del cielo retumbaba con el eco de su carrera."
Libro: Gente independiente
Autor: Halldór Laxness
domingo, 27 de enero de 2013
Prazo
"Veronique suspira, um pouco nostálgica desse tempo perdido, e apetece-lhe ler Proust em vez de Flaubert. Sorri de si própria e desse instintivo recurso à literatura que sempre lhe acontece. Logo rectifica a expressão tempo perdido: esse tempo não foi perdido, não está perdido, apenas passou como passam todos os percursos humanos."
Livro: O bazar alemão
Autora: Helena Marques
miércoles, 16 de enero de 2013
Lá longe
"E havia as outras pessoas, lá longe, a milhares de quilómetros, a passarem de carro nas estradas onde eu costumava passar também, a terem o número do meu telemóvel na sua lista, a terem o meu endereço de email e, talvez, a lembrarem-se de mim às vezes. Alguns a ligarem-me e a encontrarem sempre o telemóvel desligado, a escreverem-me emails e a minha resposta não chegar.
No passado, porque tinha sido preciso escrever romances ou vivê-los, já tinha desligado o telefone por períodos mais ou menos longos. Ainda assim, nestas alturas, eu sabia em que gaveta ele estava e, a meio da noite, quando me apetecia, podia ligá-lo e ouvir as mensagens desesperadas de vozes a viverem o pequeno drama dos prazos e dos pedidos múltiplos que tinham para me fazer. No email, era exactamente a mesma coisa. Pedidos, pedidos, a maioria dos quais acrescidos de chantagem emocional mais ou menos velada.
Com essa experiência, tive um poco a ideia do que é morrer.
Na primera semana, está toda a gente em pânico. Há os textos que têm de ser entregues, os convites que precisam de uma resposta urgente. Urgente, urgente. Na primeira semana, é tudo urgente. A ansiedade sufoca até as palavras escritas por email, sente-se.
Na segunda semana, sem resposta, sem sinal de vida, uma parte grande dessas pessoas deixa de ligar ou escrever. Aqueles que ainda insistem, deixam mensagens no telemóvel sem terem a certeza de que vão ser ouvidas. Então, têm a consciência de que podem estar a falar sozinhos. Falam muito mas pausadamente do que antes, desanimados, fazem pausas, como se tentassem ouvir o próprio eco.
Na terceira semana, quase ninguém tenta ligar. Passam-se dias sem uma única mensagem. Ao abrir o email, só publicidade. A urgência acabou, começa apenas a passar o tempo.
Na Coreia do Norte, experimentava outro tipo de morte.
Ali, era eu que estava desligado e guardado numa gaveta. Aquela era uma morte sem notícias do que deixava para trás."
Livro: Dentro do Segredo (Uma viagem na Coreia do Norte)
Autor: José Luís Peixoto
domingo, 13 de enero de 2013
Mãos
Duarte imaginou que dentro do barbeiro Alcino, em virtude de alguma estranha patologia, se estava a criar, constantemente, uma quantidade de energia muito superior àquela de que o barbeiro Alcino precisava para fazer a sua simples vida de barbeiro. E aquele excedente de energia, por forma que o barbeiro Alcino não explodisse, era libertado pelas mãos, que funcionavam como uma espécie de válvulas de escape. Quando, por algum motivo de força maior, as mãos estavam impossibilitadas de desempenhar essa função, os lábios, situados no degrau imediatamente acima do sistema de segurança, entravam em funcionamento.
Se, porventura, o barbeiro Alcino segurasse uma tesoura ao mesmo tempo que fumava, por exemplo, começaria, eventualmente, a piscar os olhos ou a bater, descontroladamente, com os pés no chão.
Duarte imaginou o barbeiro Alcino com apenas dez anos: uma caligrafia horrível, uma incapacidade quase absoluta para se vestir, para abotoar os botões da camisa, para fazer o nó nos atacadores, para jogar ao berlinde, aos matraquilhos, snooker nem pensar, dominó, para mijar de pé, para transportar um copo de água desde a cozinha até à sala, para tirar uma única moeda da carteira sem as outras todas caírem ao chão. Os pais, claro está, preocupadíssimos com o futuro do seu filho Alcino. Até que, um dia, o vêem pegar numa tesoura e vislumbram, se não um milagre, pelo menos uma luz ao fundo do túnel: o filho será barbeiro, o melhor barbeiro do salão Playboy.
Duarte não tem certeza se o barbeiro Alcino é de facto o melhor barbeiro do salão Playboy, mas acredita que será, provavelmente, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. Mais: de terem assistido a um prodígio. Como certas pinturas que nos comovem não pelas suas qualidades estéticas, mas por sabermos, de antemão, que foram pintadas por crianças sem braços.
Livro: O teu rostro será o último
Autor: João Ricardo Pedro
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