domingo, 17 de febrero de 2013

Pornolectoras



   "Sin corazón no se puede ir muy lejos. En los relatos mitológicos te lo pueden quitar todo, te pueden asesinar, descuartizar o quemar, pero siempre hay un truco para salvarse: basta con que no lleguen al corazón. Si acaban con el corazón, no hay resurrección posible. Sin corazón no hay inmortalidad. Por eso hay que cuidarlo muy bien. Alguien debe encargarse de él y guardarlo en un lugar seguro. El alma del poeta conquista su fin más elevado, la eternidad, gracias al sacrificio de una bella mujer que, al comerse el corazón de su amante, lleva a cabo un acto supremo de devoción hacia él. Acepta que la ha seducido hasta consumirla por completo."

Libro: Las buenas chicas no leen novelas
Autora: Francesca Serra

jueves, 14 de febrero de 2013

Resiliencia



     "Para ese espíritu no había ni un poco de piedad e Bjartur. No importa cuan frecuentemente cayera de cabeza e los hondones, se levantaba enseguida, impávido y llevando con redoblada furia otro ataque, apretando los dientes y lanzando maldiciones a las aceradas fauces del demonio, decidido a no detenerse antes de que el maldito espíritu de Grímur hubiese  sido perseguido hasta los más remotos rincones del infierno, hasta que la espada desnuda le hubiese traspasado y sus convulsiones de muerte comenzaran en una ronda de tierra y mar.

   Una y otra vez se imaginó que había ultimado a Grímur y que lo había enviado aullando al infierno con las inmortales palabras del poeta, pero la tormenta de nieve seguía acometiéndole con furor no disminuido cuando llegó a la cima de la montaña siguiente, le arañó los ojos y trató de voltearle; gimió vengativamente en sus oídos, le tiró de los pelos de la barba... La lucha no había terminado en modo alguno; todavía combatía a brazo partido con los señores del infierno vomitadores de veneno, que arrasaban la tierra en furibunda malicia hasta que la bóveda del cielo retumbaba con el eco de su carrera."

Libro: Gente independiente
Autor: Halldór Laxness

domingo, 27 de enero de 2013

Prazo



    "Veronique suspira, um pouco nostálgica desse tempo perdido, e apetece-lhe ler Proust em vez de Flaubert. Sorri de si própria e desse instintivo recurso à literatura que sempre lhe acontece. Logo rectifica a expressão tempo perdido: esse tempo não foi perdido, não está perdido, apenas passou como passam todos os percursos humanos."

Livro: O bazar alemão
Autora: Helena Marques 

miércoles, 16 de enero de 2013

Lá longe



     "E havia as outras pessoas, lá longe, a milhares de quilómetros, a passarem de carro nas estradas onde eu costumava passar também, a terem o número do meu telemóvel na sua lista, a terem o meu endereço de email e, talvez, a lembrarem-se de mim às vezes. Alguns a ligarem-me e a encontrarem sempre o telemóvel desligado, a escreverem-me emails e a minha resposta não chegar.

     No passado, porque tinha sido preciso escrever romances ou vivê-los, já tinha desligado o telefone por períodos mais ou menos longos. Ainda assim, nestas alturas, eu sabia em que gaveta ele estava e, a meio da noite, quando me apetecia, podia ligá-lo e ouvir as mensagens desesperadas de vozes a viverem o pequeno drama dos prazos e dos pedidos múltiplos que tinham para me fazer. No email, era exactamente a mesma coisa. Pedidos, pedidos, a maioria dos quais acrescidos de chantagem emocional mais ou menos velada.

     Com essa experiência, tive um poco a ideia do que é morrer.

     Na primera semana, está toda a gente em pânico. Há os textos que têm de ser entregues, os convites que precisam de uma resposta urgente. Urgente, urgente. Na primeira semana, é tudo urgente. A ansiedade sufoca até as palavras escritas por email, sente-se.

     Na segunda semana, sem resposta, sem sinal de vida, uma parte grande dessas pessoas deixa de ligar ou escrever. Aqueles que ainda insistem, deixam mensagens no telemóvel sem terem a certeza de que vão ser ouvidas. Então, têm a consciência de que podem estar a falar sozinhos. Falam muito mas pausadamente do que antes, desanimados, fazem pausas, como se tentassem ouvir o próprio eco.

    Na terceira semana, quase ninguém tenta ligar. Passam-se dias sem uma única mensagem. Ao abrir o email, só publicidade. A urgência acabou, começa apenas a passar o tempo.

    Na Coreia do Norte, experimentava outro tipo de morte.

    Ali, era eu que estava desligado e guardado numa gaveta. Aquela era uma morte sem notícias do que deixava para trás."

Livro: Dentro do Segredo (Uma viagem na Coreia do Norte)
Autor: José Luís Peixoto

domingo, 13 de enero de 2013

Mãos



Duarte imaginou que dentro do barbeiro Alcino, em virtude de alguma estranha patologia, se estava a criar, constantemente, uma quantidade de energia muito superior àquela de que o barbeiro Alcino precisava para fazer a sua simples vida de barbeiro. E aquele excedente de energia, por forma que o barbeiro Alcino não explodisse, era libertado pelas mãos, que funcionavam como uma espécie de válvulas de escape. Quando, por algum motivo de força maior, as mãos estavam impossibilitadas de desempenhar essa função, os lábios, situados no degrau imediatamente acima do sistema de segurança, entravam em funcionamento.
Se, porventura, o barbeiro Alcino segurasse uma tesoura ao mesmo tempo que fumava, por exemplo, começaria, eventualmente, a piscar os olhos ou a bater, descontroladamente, com os pés no chão.

Duarte imaginou o barbeiro Alcino com apenas dez anos: uma caligrafia horrível, uma incapacidade quase absoluta para se vestir, para abotoar os botões da camisa, para fazer o nó nos atacadores, para jogar ao berlinde, aos matraquilhos, snooker nem pensar, dominó, para mijar de pé, para transportar um copo de água desde a cozinha até à sala, para tirar uma única moeda da carteira sem as outras todas caírem ao chão. Os pais, claro está, preocupadíssimos com o futuro do seu filho Alcino. Até que, um dia, o vêem pegar numa tesoura e vislumbram, se não um milagre, pelo menos uma luz ao fundo do túnel: o filho será barbeiro, o melhor barbeiro do salão Playboy.

Duarte não tem certeza se o barbeiro Alcino é de facto o melhor barbeiro do salão Playboy, mas acredita que será, provavelmente, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. Mais: de terem assistido a um prodígio. Como certas pinturas que nos comovem não pelas suas qualidades estéticas, mas por sabermos, de antemão, que foram pintadas por crianças sem braços.

Livro: O teu rostro será o último
Autor: João Ricardo Pedro



martes, 18 de diciembre de 2012

Internacionalismo



   Los comunistas se distinguen únicamente de los restantes partidos proletarios porque, por una parte, en las diferentes luchas nacionales de los proletarios destacan y hacen valer los intereses comunes de todo el proletariado, independientemente de la nacionalidad; por la otra, por el hecho de que, en las diversas fases de desarrollo que recorre la lucha entre el proletariado y la burguesía, representan siempre el interés del movimiento general.
   Por consiguiente, los comunistas son, prácticamente, la parte más resuelta de los partidos obreros de todos los países , la que siempre impulsa hacia adelante, teóricamente tienen sobre el resto del proletariado la ventaja de su visión de las condiciones, de la marcha y de los resultados generales de movimiento proletario.

Libro: El manifiesto comunista
Autores: Karl Marx & Friedrich Engels

martes, 4 de diciembre de 2012

Tu não existes




- Birbal -disse Akbar-, como sabes a nossa rainha favorita tem a infelicidade de não existir. Embora a amemos mais que todas, a admiremos acima de todas as outras, e a apreciemos mais que ao próprio 
Koh-i-noor, ela está inconsolável. "A tua esposa mais feia, a megera mais rabugenta, continua a ser de carne e osso", diz ela. "No final não conseguirei competir com ela."

O primeiro-ministro aconselhou o imperador:

- Jahanpanah, deveis dizer-lhe que é precisamente no final que a sua vitória será patente aos olhos de todos, pois no final nenhuma das rainhas existirá, tal como ela, ao passo que ela terá gozado de uma vida inteira do vosso amor, e a sua fama ecoará pelas eras adiante. Assim, na realidade, embora seja verdade que ela não existe, é também verdade dizer que é ela a que vive. Se assim não fosse, além, por detrás daquela alta janela, não haveria ninguém a aguardar o vosso regresso.

Livro: A feiticeira de Florença
Autor: Salman Rushdie