viernes, 11 de marzo de 2011

Japão


"Queres saber o que me parece? Pois bem, parece-me que a maioria das pessoas vive a pensar que a vida e o mundo (e o diabo a sete) são, tirando algumas excepções, fundamentalmente lógicos e coerentes (ou deveriam sê-lo). Cheguei muitas vezes a esta conclusão falando com os que me rodeiam. Quando acontece alguma coisa, seja no terreno social ou no plano individual, há sempre alguém que diz: 'Ah, isto aconteceu porque aquilo eram assim e assado...´, e quase sempre estão todos de acordo e respondem: `Ah, pois claro, é verdade, é verdade...´ E isto é uma coisa que não me entra na cabeça. Dizer coisas do género `aconteceu isto por causa daquilo´e `por isso aconteceu o que aconteceu´não explica nada. É como meter um chawan mushi instantâneo dentro do microondas, carregar no botão e, quando soa o `tin´, abrir a porta, tirar a tampa e verificar que o prato que escolheste está pronto! Quer dizer, o que é que aconteceu entretanto debaixo da tampa? Pode muito bem ter acontecido que o chawan mushi instantâneo primeiro se tenha convertido em macarrão gratinado com queijo e só depois passado a ser chawan mushi sem que ninguém desconfiasse de nada."

Livro: Crónica do Pássaro de Corda
Autor: Haruki Murakami

martes, 1 de marzo de 2011

Viento fuerte



" - El pájaro sube y baja la cabeza y se ajusta a la oscilación de la rama. La próxima vez que sople un viento fuerte observa bien a los pájaros. Yo me paso mucho tiempo mirando por la ventana. ¿No te parece que debe de ser agotadora una vida así? Vivir moviendo el cuello a cada oscilación de la rama en la que estás posado. Pero los pájaros están acostumbrados. Para ellos eso es lo más natural. Pueden hacerlo sin ser conscientes de ello. Por eso no les resulta tan cansado como nos parece a nosotros. Pero yo soy un ser humano y, a veces, me canso.

   - ¿Está usted posada en una rama?

   - Según como lo mires -dice-. Y, a veces, sopla un viento fuerte."

Libro: Kafka en la orilla
Autor: Haruki Murakami

sábado, 26 de febrero de 2011

Arca de Noé



"- Adorava fumar uma a curtir a Southern Cross.
 - O que é isso? Uma organização não-governamental? -quis certificar-se Birgiitt.
 - Estás-te a passar! É uma constelação que só consegues ver no hemisfério sul! É por  
   causa dela que a bandeira portuguesa tem cinco quinas!
 - Uau!
 - Mas Saturno também me dá tesão, deve ser por causa dos anéis.

   Evidente que versaram matérias suplementares, mas não demasiadas, foi também nessa madrugada que se percebeu que o Zé Manel se iria chamar "Manu" daqui para a frente, escapatória não havia:
- Me gusta marihuana, me gustas tu... Me gusta marihuana, me gustas tu...

  Mesmo sendo o êxito daquele Verão finimilenar, a cantilena não desenvolvia, não passava dali, Birgitt dera o mote e assim ficariam pedrados a ver a espuma das ondas, a Lua encarregava-se de a iluminar. Mais un dia e estaria cheia, cenário ideal para, na sua trip vicentina, Manu fantasiar con um tsunami, com um vagalhão que engolisse não só o rectângulo como o resto do planeta, e que num pestanejar fôssemos todos àgua, até porque foi ali que se multiplicou a vida, da primeira célula, pois."

Livro: "Terra Java"
Autor: João Lopes Marques

jueves, 24 de febrero de 2011

Metáfora



   "A palavra metáfora, que significa transportar alguma coisa de um local para outro, tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer de um local para outro e outra que quer dizer transportar e consiste em descrever alguma coisa utilizando uma palavra que não corresponde a essa coisa. Isto significa que a palavra metáfora é uma metáfora.
   Acho que devia chamar-se uma mentira, porque as pessoas não rebentam a rir e não têm telhados de vidro. E quando tento visualizar a frase na minha cabeça, isso só me confunde, porque imaginar uma menina nos olhos de alguém não tem nada a ver com gostar muito de uma pessoa e faz com que nos esqueçamos do que a pessoa estava a dizer.
  O meu nome, Christopher, é uma metáfora. Significa transportar Cristo e tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer Jesus Cristo e outra que foi o nome dado a S. Cristóvão porque ele atravessou um rio, carregando Jesus Cristo.
   Isto faz-nos pensar em como ele se chamaria antes de atravessar o rio, carregando Cristo. Mas ele não se chamava coisa nenhuma pois esta é uma história apócrifa, o que significa que também é uma mentira".

Livro:  "O estranho caso do cão morto"
Autor: Mark Haddon

miércoles, 23 de febrero de 2011

Era uma vez...


" Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos de ficção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas. Daí o êxito dos viagaristas hábeis no falar.
   Sem sequer ter pensado nisso, eu acabara por me tornar para eles uma fazedora de ilusões. Uma espécie de fada, como dizia a vizinha.
   As minhas narrações de filmes arrancavam-nos àquele nada acre que era o deserto e, ainda que fosse só por um bocadilho, transportavam-nos para mundos maravilhosos, plenos de amores, de sonhos e aventuras. Ao contrário do que acontecia vendo-os projectados num ecrã de cinema, nas minhas narrações cada qual podía imaginar esses mundos à sua vontade.
   Li em qualquer parte, ou vi num filme, que, quando os judeus eram transportados pelos alemães naqueles vagões de gado fechados -só com uma ranhura na parte de cima para deixar entrar um pouco de ar-, enquanto atravessavam as campinas com cheiro a erva húmida, escolhiam entre si o melhor narrador e, fazendo-o trepar sobre os ombros, içavam-no até à ranhura para que lhes fosse descrevendo a paisagem e contado o que via à passagem do comboio.
   Agora estou convencida de que devia haver muitos, entre eles, que preferiam imaginar aquelas maravilhas contadas por um companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura com os seus próprios olhos".

Livro: "A contadora de filmes"
Autor: Hernán Rivera Letelier

martes, 22 de febrero de 2011

Dalton



"Era uma vez um camaleão que não tinha jeito para as cores, aliás era mesmo daltónico. Sempre que era preciso mudar, mudava para a cor errada. Isto trazia muitas complicações e perigos, tanto para si como para o seu bando de camaleões, que já nem o podiam ver nem castanho, nem verde, nem amarelo, não o podiam mesmo ver a certa altura, porque ele era demasiado visível!, sempre mal camuflado... empurrando o pobre do Dalton para uma triste solidão. É que ele não acertava nunca, por ser daltónico e também trapalhão. Um dia, ao regressar com outros camaleões ao seu arbusto, duma festa de casamento onde tinham comido muito bem e bebido melhor, sopa de moscas azuis, a rara aranha da areia que só tem seis olhos como prato principal (não se come o veneno), soufflé de mosquito, pudim de formiga voadora, tudo regado com suco fermentado de gafanhoto... o Dalton vinha triste da festa porque casara a Maria Colorida, tão bonita, a camaleoa com a pele mais áspera do Algarve..."

Livro: Deixem passar o homem invisível
Autor: Rui Cardoso Martins

sábado, 19 de febrero de 2011

Fome



"Beijei-o e voltei a beijá-lo. Depois, impulsivamente, com a ponta da língua comecei a lamber a tinta da assinatura, com a paciência do gato que bebe o leite da tigela lambi tudo até ter desaparecido o "O", o "l", o "i", o "v", o segundo "i", o "a" -lambi até ter desaparecido por completo a cauda ascendente. Tinha bebido a caigrafia dela. Tinha-lhe comido o nome. Tinha feito um enorme esforço para não comer a carta toda".

Livro: Indignação
Autor: Philip Roth