martes, 2 de abril de 2013
Um livro todo engelhado
Um livro todo engelhado.
O frio no corpo todo
pés à mostra e cortado
o nevoeiro é curvar rente
como um agasalho
Cresce do mar e encosta
cresce espesso e amarelo
ir daqui a outro lado
se noutra vida à brava te amasse
é talvez numa dessas cadeiras
Uma história lida devagar
e engraçadas as mãos
a fingir.
Livro: Uma pedra parecida
Autor: Hugo Milhanas Machado
sábado, 23 de marzo de 2013
Despertares
"Cão obcecado. Tarado sexual, digo eu. Apaixonado, corrige a minha filha. Começou na praia, com uma cadela rafeira. Foi para ele uma iniciadora, misto de amante, mãe, irmã e puta. Passou as férias em cima dela. A cadela deixava, sem grande entusiasmo, mas dir-se-ia que com ternura e compreensão. Ou compaixão. Parecia muito velha para ter filhos, mas uns tempos depois apareceram uns rafeiros malhados do Kurika. Ou vice-versa.
Todos os Verões ele se apaixonava. Então ficava de nariz colado à porta da entrada. Abria-se a porta e ficava marrado em frente da casa da favorita. Gemia de amor, aquele cão Romeu qeu queria estar o mais perto possível da sua Julieta.
Às tantas desaparecia. Voltava passados dois ou três dias, mais morto que vivo, a cheirar a cadela e ao pó dos caminhos.
Eram amores de praia, intensos e passageiros."
Livro: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre
jueves, 14 de marzo de 2013
Irresignação
-Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.
O coronel não mexeu um músculo.
-Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.
-Nada mais do que um filho morto.
O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.
-Cumprimos o nosso dever -disse ele.
-E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos -replicou a mulher. -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.
-Mas está a morrer de diabetes -contrapôs o coronel.
-E tu estás a morrer de fome -retorquiu a mulher. -Para que te convenças de que a dignidade não se come.
Autor: Gabriel García Márquez
jueves, 7 de marzo de 2013
Invierno
"Piensas que nunca te va a pasar, imposible que te suceda a ti, que eres la única persona del mundo a quien jamás ocurrirán esas cosas, y entonces, una por una, empiezan a pasarte todas, igual que le suceden a cualquier otro."
Autor: Paul Auster
lunes, 4 de marzo de 2013
Sair da rotunda
"Nem sempre Aaronson esteve morto.
Num certo período, Aaronson foi mesmo, sem exagero, um ser vivo.
Entre os vinte e sete e os trinta anos Aaronson circulava -como um insecto obcecado- em torno de uma rotunda.
Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade. rotunda onde desembocaba sessenta por cento do tráfego.
Às sete da manhã o fumo dos automóveis era menor do que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem dava centenas de voltas à rotunda. Aaronson.
Qualquer hábito, qualquer repetição de um acto por mais absurdo que seja, rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas; em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruoso e o informe se faça normalidade e hábito. No limite: facto a que não se dá atenção, paisagem.
Entre as sete e as sete e meia, os automobilistas que por hábito passavam pela rotunda já sabiam que, também por hábito, um homem, vestido a rigor com calções e camisola de atleta, circulava por ali. Centenas e centenas de vezes em redor da mesma rotunda, como um carro que não soubesse o caminho, que hesitasse entre seguir por uma direcção ou outra; que se deixasse estar por ali, à roda, não arriscando, não tomando uma opção. Enquanto estiver na rotunda não estou perdido, pelo menos não volto atrás. E eis um dos atractivos daquela circulação, circulação quase infinita não fora ela terminar com exactidão às trezentas voltas: em redor de uma rotunda ningém volta atrás, ninguém se engana, ninguém tem de assumir o erro e fazer inversão de marcha. A vida, apesar de tudo, é fácil. Numa rotunda.
Ninguém gosta de ser humilhado e Aaronson (se fosse um automóvel) pelo menos não entrava na estrada errada. Trezentas voltas para ganhar balanço e depois o regresso a casa. Não arrisques! -parecia alguém dizer-lhe ao ouvido.
Falemos brevemente da rotunda: uma circunferência perfeita. Diâmetro: impossível saber ao certo, mas era exacto -um número sem arredondamentos.
Aaronson entre os vinte e sete e os trinta anos, no período em que corria entre as sete e as sete e meia da manhã à volta da rotunda principal da cidade, foi considerado apenas um louco previsível -o que é ser metade de um louco pois a previsibilidade divide o perigo em dois.
Alguns dias depois de fazer trinta anos deixou, no entanto, de fazer a sua corrida na rotunda.
Deixaram de o ver. E deixaram de o ver porque Aaronson morreu. E a cidade envergonha-se tanto de um corpo morto que, no máximo, numa hora, o corpo desaparece. Se alguém quiser ver o corpo morto que se dirija pois ao sítio em causa, naquele período mínimo em que o morto está morto em plena cidade."
Livro: Matteo perdeu o emprego.
Autor: Gonçalo M. Tavares
miércoles, 20 de febrero de 2013
Sem maiúsculas
"porque a sua morte me aterroriza. não passa, américo, não passa. a morte dela não passa. o américo esperou uns segundos por que me acalmasse, procurou um silêncio limpo como uma folha muito limpa onde pudesse escrever uma frase mais digna e disse, um dia essa saudade vai ser benigna. a lembrança da sua esposa vai trazer-lhe um sorriso aos lábios porque é isso que a saudade faz, constrói uma memória que nós nos orgulhamos de guardar, como um troféu de vida, um dia, senhor silva, a sua esposa vai ser uma memória que já não dói e que lhe traz apenas felicidade. a felicidade de ter partilhado consigo um amor incrível que não pode mais fazê-lo sofrer, apenas levá-lo à glória de o ter vivido, de o ter merecido, tenho até inveja de si, senhor silva, porque eu tenho trinta e um anos e estou por aqui solteiro, já não vou a tempo de ter cinquenta anos de uma grande paixão.
esse era o segredo que só o tempo guardava. só o tempo revelaria tal milagre. o tempo, e a sensibilidade de quem via o tempo diante dos olhos a acabar-se a cada dia."
Livro: a máquina de fazer espanhóis.
Autor: valter hugo mãe
domingo, 17 de febrero de 2013
Pornolectoras
"Sin corazón no se puede ir muy lejos. En los relatos mitológicos te lo pueden quitar todo, te pueden asesinar, descuartizar o quemar, pero siempre hay un truco para salvarse: basta con que no lleguen al corazón. Si acaban con el corazón, no hay resurrección posible. Sin corazón no hay inmortalidad. Por eso hay que cuidarlo muy bien. Alguien debe encargarse de él y guardarlo en un lugar seguro. El alma del poeta conquista su fin más elevado, la eternidad, gracias al sacrificio de una bella mujer que, al comerse el corazón de su amante, lleva a cabo un acto supremo de devoción hacia él. Acepta que la ha seducido hasta consumirla por completo."
Libro: Las buenas chicas no leen novelas
Autora: Francesca Serra
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