jueves, 16 de agosto de 2012

MARIA DAS QUIMERAS



 Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui,
Plas flores de oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh´alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi,
Que da minh´alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
As flores de oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, n avida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?

Livro: Sonetos
Autor: Florbela Espanca

 

lunes, 6 de agosto de 2012

Voyage, voyage


"O Verão de 1987 foi diferente. Anunciava mudança. Tenro nos meus 15 anos, não só conheci a minha primeira namorada, Laia, uma catalã nacionalista de Girona, como era a primeira vez que sozinho viajava fora das fronteiras de Portugal. Rumei a um desses campos de educação ambiental que, para nossa sorte, teve o santuário andaluz de El Rocío como cenário.

Muito me familiarizei com as marismas de Huelva, com a Blanca Paloma e com a impressionante fauna do Parque Nacional de Doñana, um luxo ibérico.

Não obstante, a grande revolução na minha vida tinha epicentro em França. Ou Bélgica, nunca percebi bem. Enquanto nos pátios traseiros ensaiávamos alguns passos de sevilhana, os radialistas da Cadena Ser insistiam num sórdido braço-de-ferro: Voyage, voyage. A canção, passava no éter a cada 10 minutos. Adolescentes encantados, deslumbrados entre dois beijos nos lábios, e não esquecer a beleza dos crespúsculos de Junho nem os acampamentos promíscuos em Matalascañas, estacávamos.

Voyage, voyage: a fantasia era colectiva."

Livro: Choque cultural
Autor: João Lopes Marques

Amado Jorge



     "El perfume de clavo llenaba la habitación, el calor que venía del cuerpo de Gabriela envolvió a Nacib, quemaba su piel y el rayo lunar moría en la cama. En un susurro, entre besos, la voz de Gabriela agonizaba.
      -Mozo lindo..."

Libro: Gabriela, clavo y canela
Autor: Jorge Amado

martes, 31 de julio de 2012

EXPLOTACIÓN



     "Sabemos que el tipo de la supervalía depende, en primer lugar, del grado de explotación de la fuerza obrera. Hemos supuesto siempre, al tratar de la producción de la supervalía, que el obrero recibe el justo valor de su fuerza. Sin embargo, los cercenamientos hechos a este valor juegan en la práctica un papel muy importante. Este procedimiento transforma en cierto modo el fondo de consumo necesario para el sustento del trabajador en fondo de acumulación del capitalista. La tendencia del capital es también reducir los salarios todo lo posible y eliminar del consumo obrero lo que él llama lo superfluo."

Libro: El capital
Autor: Karl Marx

lunes, 30 de julio de 2012

QUARENTA DIAS




     "Hoje sei que o meu raciocínio não passava de uma grosseira imitação dos meus sonhos. Mas eu amava Sophia e precisava de acreditar que esse amor era mais real do que a realidade. Naquela altura pensava que a realidade sempre arranjava maneira de viver fora de nós, tão longe como se esse longe não existisse ou a sua incerta luz jamais nos pudesse alcançar. Durante aqueles quarenta dias experimentei o acre calafrio da angústia, o receio de perdê-la da noite para o dia. Descobri assim que a sensação de incerteza assenta quase sempre na posse, e, assim, aquele que nada possui não deve ter outra preocupação que não seja encontrar uma fimbria de esperança ou de luz nas trevas, alheio às ciladas do desassossego. Só quem teme perder alguma coisa -porque já a tem e a posse se supõe ser transitória, peregrina e mutante- se instala nesse turvo território onde nada se sustém."

Livro: Cinzas de Abril
Autor: Manuel Moya

jueves, 12 de julio de 2012

SENTENÇA




"Chamada ao tribunal, a Memória pôs-se a evocar as esperanças, os desejos, os sentimentos com que eu me deleitava desde a noite anterior e o estado de espírito em que vivía há quase quinze dias; quando chegou a vez da Razão, esta, com a voz serena, fez uma narração muito simples, em que explicava como eu havia desprezado a realidade, para me embriagar do ideal. Então eu lavrei a seguinte sentença:
Nunca, sob a rosa do sol, houvera maior insensata que Jane Eyre; nunca mais fantástica idiota se deixara embalar por mais doces mentiras, ingerindo veneno como se fosse néctar."

Livro: Jane Eyre
Autor: Charlotte Brontë

domingo, 17 de junio de 2012

AS DERROTAS


74
"Mas o meu pai aprendeu a lição. Pagou juros altíssimos
 por um mau investimento, mas regressou
 à cadeira ainda com vontade de se levantar.
 As derrotas devem surgir
 enquanto somos novos e fortes, pois aí os insucessos
 fortalecem, enquanto mais tarde poderão enfraquecer.
 Uma derrota no tempo certo é aquilo que
 te fará vencer no tempo certo. E estes
 podem ser dois tempos ou um. Parece-me.

75
A intensidade com que se é esmagado não importa,
de facto o que importa é a intensidade que nos resta
depois de sermos esmagados.
... "

Livro: Uma viagem à Índia
Autor: Gonçalo M. Tavares