lunes, 30 de julio de 2012

QUARENTA DIAS




     "Hoje sei que o meu raciocínio não passava de uma grosseira imitação dos meus sonhos. Mas eu amava Sophia e precisava de acreditar que esse amor era mais real do que a realidade. Naquela altura pensava que a realidade sempre arranjava maneira de viver fora de nós, tão longe como se esse longe não existisse ou a sua incerta luz jamais nos pudesse alcançar. Durante aqueles quarenta dias experimentei o acre calafrio da angústia, o receio de perdê-la da noite para o dia. Descobri assim que a sensação de incerteza assenta quase sempre na posse, e, assim, aquele que nada possui não deve ter outra preocupação que não seja encontrar uma fimbria de esperança ou de luz nas trevas, alheio às ciladas do desassossego. Só quem teme perder alguma coisa -porque já a tem e a posse se supõe ser transitória, peregrina e mutante- se instala nesse turvo território onde nada se sustém."

Livro: Cinzas de Abril
Autor: Manuel Moya

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