martes, 21 de mayo de 2013

O cavalo de cartão



   "Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado, deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, acreditas? E nessa noite choveu. No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei."

Livro: Nenhum Olhar
Autor: José Luís Peixoto

martes, 30 de abril de 2013

Iceland




     "- Y nuestro pueblo no volverá a ser azotado por exigir un precio digno para todas las mercancías -dijo Arnas Arneus-. Construiremos villas al estilo de otras naciones en torno a todos los puertos y crearemos una flota pesquera y venderemos pescado seco y géneros, como en los tiempos anteriores a los de Jón Arason, en las ciudades del continente, comprando a cambio mercancías dignas de hombres civilizados. Extraeremos de la tierra materias preciosas. El emperador enseñará el puño al rey danés y le exigirá que devuelva a los islandeses los objetos preciosos que hizo robar de la catedral de Hólar y de los monasterios de Munkathverá, Mödruvellir y Thingeyri. Asimismo serán devueltas las propiedades de que la Corono privó a la Iglesia islandesa después de su caída. Y se alzarán en Islandia universidades y colegios, en los que los estudiosos islandeses puedan vivir nuevamente una vida humana.

     - Y edificaremos palacios no menos soberbios que los que el gobernador Gyldenloeve se ha hecho construir en Dinamarca con el dinero de Islandia.

     - En Thingvellir se elevará una soberbia Casa de Justicia, y en su torre se colocará una campana más grande y más sonora que la que el rey mandó requisar y el verdugo ordenó derribar a Jón Hreggvidsson - dijo él.

     - Y la luna fría que se refleja en la Sima de los Ahogados dejará de ser el único consuelo de las mujeres pobres -dijo ella.

    - Y los mendigos hambrientos no volverán a ser ahorcados en nombre de la Justicia en el Almanngja -dijo él.

    - Y todos serán nuestros amigos nuestros porque todos vivirán bien.

    - Y la mazmorra será suprimida, porque en un país donde todos viven bien no se cometen crímenes.

    - Y nosotros dos cruzaremos el país en caballos blancos ... -dijo ella."

Libro: La campana de Islandia
Autor: Halldór Laxness

viernes, 19 de abril de 2013

A luta



   De súbito perguntou:

  -Dime, compañero, vamos a perder la guerra?

  Antes que o camarada falasse, passaram como um relâmpago na memória de Abel as palavras de Rúbio que Ántonio lhe citara. "Las grandes luchas victoriosas de los trabajadores y de los pueblos han sido posibles porque los trabajadores y los pueblos han luchado en cada caso confiando en la victoria, pero sin tener la certeza de alcanzarla."

Livro: A casa de Eulália
Autor: Manuel Tiago


martes, 2 de abril de 2013

Um livro todo engelhado




Um livro todo engelhado.

O frio no corpo todo
pés à mostra e cortado
o nevoeiro é curvar rente
como um agasalho

Cresce do mar e encosta
cresce espesso e amarelo
ir daqui a outro lado
se noutra vida à brava te amasse
é talvez numa dessas cadeiras

Uma história lida devagar
e engraçadas as mãos
a fingir.

Livro: Uma pedra parecida
Autor: Hugo Milhanas Machado

sábado, 23 de marzo de 2013

Despertares



     "Cão obcecado. Tarado sexual, digo eu. Apaixonado, corrige a minha filha. Começou na praia, com uma cadela rafeira. Foi para ele uma iniciadora, misto de amante, mãe, irmã e puta. Passou as férias em cima dela. A cadela deixava, sem grande entusiasmo, mas dir-se-ia que com ternura e compreensão. Ou compaixão. Parecia muito velha para ter filhos, mas uns tempos depois apareceram uns rafeiros malhados do Kurika. Ou vice-versa.

     Todos os Verões ele se apaixonava. Então ficava de nariz colado à porta da entrada. Abria-se a porta e ficava marrado em frente da casa da favorita. Gemia de amor, aquele cão Romeu qeu queria estar o mais perto possível da sua Julieta. 

     Às tantas desaparecia. Voltava passados dois ou três dias, mais morto que vivo, a cheirar a cadela e ao pó dos caminhos.

     Eram amores de praia, intensos e passageiros."

Livro: Cão como nós
Autor: Manuel Alegre

jueves, 14 de marzo de 2013

Irresignação



    -Estou disposta a acabar com os fingimentos e as contemplações nesta casa -disse. A sua voz começou a turvar-se de cólera. -Estou mais que farta de resignação e de dignidade.

     O coronel não mexeu um músculo.

   -Vinte anos à espera dos sapatos de defunto que te prometeram depois das eleições todas e de tudo isso só nos resta um filho morto -prosseguiu ela.

   -Nada mais do que um filho morto.

    O coronel estava habituado a esta espécie de recriminações.

   -Cumprimos o nosso dever  -disse ele.

   -E eles cumpriram o deles de ganharem mil pesos por mês no senado durante vinte anos  -replicou a mulher.  -Aí tens o meu compadre Sabas com uma casa de dois pisos que não lhe chega para meter o dinheiro que tem, um homem que chegou cá à terra a vender remédios com uma cobra enrolada ao pescoço.

   -Mas está a morrer de diabetes  -contrapôs o coronel.

   -E tu estás a morrer de fome  -retorquiu a mulher.  -Para que te convenças de que a dignidade não se come.

Livro: Ninguém escreve ao Coronel
Autor: Gabriel García Márquez

jueves, 7 de marzo de 2013

Invierno




     "Piensas que nunca te va a pasar, imposible que te suceda a ti, que eres la única persona del mundo a quien jamás ocurrirán esas cosas, y entonces, una por una, empiezan a pasarte todas, igual que le suceden a cualquier otro."

Libro: Diario de invierno
Autor: Paul Auster