miércoles, 15 de febrero de 2012

Porto



   "Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oxímoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.

    Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de àgua no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado de Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel.

    Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria."

Livro: Abraço
Autor: José Luís Peixoto

lunes, 30 de enero de 2012

Guerras


   "Las nubes se desplazaban lentamente hacia el sur. Por muchas nubes que fluyeran, siempre aparecían otras, y otras más. Sin duda alguna, en las lejanas tierras del norte había una inagotable fuente que las proveía. Allí, una gente empecinada, ataviada con gruesos uniformes grises, fabricaba nubes en silencio de la mañana a la noche. Igual que las abejas fabrican miel, las arañas fabrican telarañas y la guerra fabrica viudas."

Libro: 1Q84 (Libro 3)
Autor: Haruki Murakami

sábado, 21 de enero de 2012

The writer

   

"Então minto-lhe para nos mantermos juntos. Para mantermos, enfim, algum tipo de equilíbrio. As histórias ajudam. Não me perguntes porquê, mas, quando começo a contar-lhe histórias, as coisas entre nós melhoram logo. Pensavas que eu tinha deixado de escrever ficção, mas não é verdade. Eu continuo a escrever ficção. O meu público agora resume-se a uma pessoa, mas essa pessoa é a única que realmente conta."

Livro: Leviathan
Autor: Paul Auster

sábado, 7 de enero de 2012

(Para além do) ADAMASTOR


          "Imaginei-o a encolher os ombros e a olhar para as luzes lá longe, do outro lado do rio. Estavam nos antípodas. Da mesa, do mundo e um do outro também.

           Ela casada. Ele solteiro. Ela ancorada. Ele farto de viajar, de correr o mundo, de viver em locais remotos da terra, nas montanhas em casas de pedra sem electricidade no meio da natureza. E desafiava:
- Há sempre um preço a pagar pelas opções que tomas. Tás a ver? Podes virar à direita ou à esquerda. Escolheste virar à esquerda? Azar. Morreste ali...

          Só queria ter visto a cara dela nesse momento mas, se me virasse, seria o fim. Ia ter de continuar a imaginá-los.

          A empregada passou por mim e sorriu. Eu devia estar com um ar um bocado fora de ali. Reparei então que ainda não tinha tocado na cerveja. Dei um golo para disfarçar. Senti as orelhas a arder por ser um "voyeur". Um expectador da vida alheia. Mas logo me recompus: Afinal, se os pintores se podiam inspirar na natureza, como poderei eu evitar escutar a voz humana? Lembrei-me de ir sentado no "Metro" a ouvir as conversas e a imaginar a vida daquelas pessoas.

          Ele continuava a falar:
- Eu paguei o preço em solidão.

          E ria-se, enquanto eu imaginava o o ar dela a tentar disfarçar o desconforto que as palavras dele lhe provocavam ao revelarem sem pudor aquilo em que a vida dela se havia transformado. Quando teria sido ao certo o momento da sua morte?  Tentou em vão lembrar-se do momento em que havia escolhido virar à esquerda.

         Ele não. Estava só, mas não lhe parecia pesar a solidão. Ele é que tinha abandonado todos. Estava por sua conta e risco e parecia dar-se bem com tal situação:
- Free... lance... dizia ele entre risadas"

Livro: Biografia não autorizada
Autor: João Moura

martes, 6 de diciembre de 2011

Historia



   "Dos años antes de morir, Fernando cometió un error político similar al de su padre. En lugar de seguir el derecho visigodo y leonés, que disponía que las posesiones reales no se dividieran entre distintos herederos, se basó en las normas navarras y troceó sus territorios entre sus hijos. A Sancho, el primogénito, le dejó el Reino de Castilla y las parias (tributos) de la taifa de Zaragoza. A Alfonso, dicen que su preferido, el Reino de León y las parias de Toledo. A García, el tercer varón, el Reino de Galicia y las parias de las taifas de de Badajoz y Sevilla. A Urraca, el señorío de Zamora. A Elvira, el de Toro.

    Era un lío, una excusa perfecta para que los hermanos se metieran en una espiral de enfrentamientos, intrigas y traiciones. Y para que viniera el Cid a pedir cuentas al ganador final de la contienda -o quizás no-. Y para que llegaran los juglares a contarlo en versos contundentes y falsarios, de los que luego contribuyeron a la tergiversación de la historia real, al nacimiento de una nación inventada."

Libro: La nación inventada (una historia diferente de Castilla)
Autores: Arsenio Escolar /  Ignacio Escolar

miércoles, 23 de noviembre de 2011

Fuga


    "Ronda das quatro horas. Luzes acesas. Os dois guardas avançaram sem nada notar de extraordinário. Cada preso coberto pelas mantas. Nenhum movimento suspeito.
   
    Já perto do extremo da "sala", a pouca distância da última janela gradeada, estacaram em pânico. Nas grades, um enorme buraco abria passagem para fora, para a cidade, para o ar livre.

   Soaram agudos apitos de alarme e pedido de socorro. Pistolas em punho, os guardas voltaram-se desorientados para um lado e outro. Os presos acordaram em sobressalto sem perceber o que se pasava.

   Breves instantes e alguns guardas mais, brandindo cassetetes, invadiram a "sala" e bloquearam a saída.

   - Tu aí! - gritaram para Vítor que, coberto pela manta, fingia dormir.  - Não ouves? - insistiram arrancando-o do bailique à pancada.
     - Onde estão os teus camaradas?  -perguntaram ao darem pela falta dos fugitivos.

     A própria pergunta, de tão tola que era, confirmava o êxito da fuga.

   - Não dei por nada - respondeu Vítor. E a alegria era tanta que mal sentia as pancadas brutais, que logo sobre ele descarregaram."

Livro: Sala 3
Autor: Manuel Tiago   

lunes, 7 de noviembre de 2011

Lisboa


   "Amo a Lisboa dos profundos ruídos, as avenidas planas nas manhãs de domingo e os bairros da periferia onde dei por mim a ser personagem de um quotidiano que nunca assumiu a dimensão real ou sequer a ficção do destino potuguês. Em Lisboa, limitei-me à diferença discreta, à segunda infância que já não ia ser eterna nem contemplaria mais esta paisagem de mar."

Livro: Gente feliz com lágrimas
Autor: João de Melo