sábado, 7 de enero de 2012

(Para além do) ADAMASTOR


          "Imaginei-o a encolher os ombros e a olhar para as luzes lá longe, do outro lado do rio. Estavam nos antípodas. Da mesa, do mundo e um do outro também.

           Ela casada. Ele solteiro. Ela ancorada. Ele farto de viajar, de correr o mundo, de viver em locais remotos da terra, nas montanhas em casas de pedra sem electricidade no meio da natureza. E desafiava:
- Há sempre um preço a pagar pelas opções que tomas. Tás a ver? Podes virar à direita ou à esquerda. Escolheste virar à esquerda? Azar. Morreste ali...

          Só queria ter visto a cara dela nesse momento mas, se me virasse, seria o fim. Ia ter de continuar a imaginá-los.

          A empregada passou por mim e sorriu. Eu devia estar com um ar um bocado fora de ali. Reparei então que ainda não tinha tocado na cerveja. Dei um golo para disfarçar. Senti as orelhas a arder por ser um "voyeur". Um expectador da vida alheia. Mas logo me recompus: Afinal, se os pintores se podiam inspirar na natureza, como poderei eu evitar escutar a voz humana? Lembrei-me de ir sentado no "Metro" a ouvir as conversas e a imaginar a vida daquelas pessoas.

          Ele continuava a falar:
- Eu paguei o preço em solidão.

          E ria-se, enquanto eu imaginava o o ar dela a tentar disfarçar o desconforto que as palavras dele lhe provocavam ao revelarem sem pudor aquilo em que a vida dela se havia transformado. Quando teria sido ao certo o momento da sua morte?  Tentou em vão lembrar-se do momento em que havia escolhido virar à esquerda.

         Ele não. Estava só, mas não lhe parecia pesar a solidão. Ele é que tinha abandonado todos. Estava por sua conta e risco e parecia dar-se bem com tal situação:
- Free... lance... dizia ele entre risadas"

Livro: Biografia não autorizada
Autor: João Moura

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