sábado, 7 de enero de 2012

(Para além do) ADAMASTOR


          "Imaginei-o a encolher os ombros e a olhar para as luzes lá longe, do outro lado do rio. Estavam nos antípodas. Da mesa, do mundo e um do outro também.

           Ela casada. Ele solteiro. Ela ancorada. Ele farto de viajar, de correr o mundo, de viver em locais remotos da terra, nas montanhas em casas de pedra sem electricidade no meio da natureza. E desafiava:
- Há sempre um preço a pagar pelas opções que tomas. Tás a ver? Podes virar à direita ou à esquerda. Escolheste virar à esquerda? Azar. Morreste ali...

          Só queria ter visto a cara dela nesse momento mas, se me virasse, seria o fim. Ia ter de continuar a imaginá-los.

          A empregada passou por mim e sorriu. Eu devia estar com um ar um bocado fora de ali. Reparei então que ainda não tinha tocado na cerveja. Dei um golo para disfarçar. Senti as orelhas a arder por ser um "voyeur". Um expectador da vida alheia. Mas logo me recompus: Afinal, se os pintores se podiam inspirar na natureza, como poderei eu evitar escutar a voz humana? Lembrei-me de ir sentado no "Metro" a ouvir as conversas e a imaginar a vida daquelas pessoas.

          Ele continuava a falar:
- Eu paguei o preço em solidão.

          E ria-se, enquanto eu imaginava o o ar dela a tentar disfarçar o desconforto que as palavras dele lhe provocavam ao revelarem sem pudor aquilo em que a vida dela se havia transformado. Quando teria sido ao certo o momento da sua morte?  Tentou em vão lembrar-se do momento em que havia escolhido virar à esquerda.

         Ele não. Estava só, mas não lhe parecia pesar a solidão. Ele é que tinha abandonado todos. Estava por sua conta e risco e parecia dar-se bem com tal situação:
- Free... lance... dizia ele entre risadas"

Livro: Biografia não autorizada
Autor: João Moura

martes, 6 de diciembre de 2011

Historia



   "Dos años antes de morir, Fernando cometió un error político similar al de su padre. En lugar de seguir el derecho visigodo y leonés, que disponía que las posesiones reales no se dividieran entre distintos herederos, se basó en las normas navarras y troceó sus territorios entre sus hijos. A Sancho, el primogénito, le dejó el Reino de Castilla y las parias (tributos) de la taifa de Zaragoza. A Alfonso, dicen que su preferido, el Reino de León y las parias de Toledo. A García, el tercer varón, el Reino de Galicia y las parias de las taifas de de Badajoz y Sevilla. A Urraca, el señorío de Zamora. A Elvira, el de Toro.

    Era un lío, una excusa perfecta para que los hermanos se metieran en una espiral de enfrentamientos, intrigas y traiciones. Y para que viniera el Cid a pedir cuentas al ganador final de la contienda -o quizás no-. Y para que llegaran los juglares a contarlo en versos contundentes y falsarios, de los que luego contribuyeron a la tergiversación de la historia real, al nacimiento de una nación inventada."

Libro: La nación inventada (una historia diferente de Castilla)
Autores: Arsenio Escolar /  Ignacio Escolar

miércoles, 23 de noviembre de 2011

Fuga


    "Ronda das quatro horas. Luzes acesas. Os dois guardas avançaram sem nada notar de extraordinário. Cada preso coberto pelas mantas. Nenhum movimento suspeito.
   
    Já perto do extremo da "sala", a pouca distância da última janela gradeada, estacaram em pânico. Nas grades, um enorme buraco abria passagem para fora, para a cidade, para o ar livre.

   Soaram agudos apitos de alarme e pedido de socorro. Pistolas em punho, os guardas voltaram-se desorientados para um lado e outro. Os presos acordaram em sobressalto sem perceber o que se pasava.

   Breves instantes e alguns guardas mais, brandindo cassetetes, invadiram a "sala" e bloquearam a saída.

   - Tu aí! - gritaram para Vítor que, coberto pela manta, fingia dormir.  - Não ouves? - insistiram arrancando-o do bailique à pancada.
     - Onde estão os teus camaradas?  -perguntaram ao darem pela falta dos fugitivos.

     A própria pergunta, de tão tola que era, confirmava o êxito da fuga.

   - Não dei por nada - respondeu Vítor. E a alegria era tanta que mal sentia as pancadas brutais, que logo sobre ele descarregaram."

Livro: Sala 3
Autor: Manuel Tiago   

lunes, 7 de noviembre de 2011

Lisboa


   "Amo a Lisboa dos profundos ruídos, as avenidas planas nas manhãs de domingo e os bairros da periferia onde dei por mim a ser personagem de um quotidiano que nunca assumiu a dimensão real ou sequer a ficção do destino potuguês. Em Lisboa, limitei-me à diferença discreta, à segunda infância que já não ia ser eterna nem contemplaria mais esta paisagem de mar."

Livro: Gente feliz com lágrimas
Autor: João de Melo

domingo, 30 de octubre de 2011

Mundo errado


   "Parecia-me que não encaixava em nenhum sítio, como se tivesse nascido no mundo errado. A sensação de nunca me sentir completamente confortável ou seguro, de estar sempre à margen e separado, abatia-se pesadamente sobre mim.
    Tornava-me, gradualmente, cada vez mais consciente da minha solidão e comecei a desejar ter um amigo. Todos os meus colegas tinham pelo menos um e muitos tinham vários. Passava horas, à noite, na cama, acordado a olhar para o tecto e a imaginar como seria ser amigo de alguém. Tinha a certeza de que, de algum modo, me tornaria menos diferente. Talvez então, imaginava, as outras crianças não pensassem que eu fosse tão estranho. O facto de o meu irmão e a minha irmã mais novos terem vários amigos que, por vezes, vinham com eles da escola para casa não ajudava. Ficava sentado junto à janela que dava para o jardim, a ouvi-los brincar. Não conseguia compreender porque não falavam sobre coisas realmente interessantes, como moedas, ou castanhas, ou números, ou joaninhas."

Livro: Nascido num dia azul
Autor: Daniel Tammet

lunes, 24 de octubre de 2011

Chiquíssima


   "Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da `Liga Internacional das Mulheres Inúteis´, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

   Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

   Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

   De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade."

Livro: Contos Exemplares
Autor: Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 23 de octubre de 2011

L´AUBISQUE


   "Diz que nos esperam em casa
     e temos motivo de alegria seja esse
     e portanto descemos contentes


    Vi no Amélie que a sorte é como o Tour de França
    uma vida na espera e entretanto já passou
    o pelotão já passou vem o carro-vassoura
    lembramos divertimentos cremos nos filmes


    Eu desço a montanha
    a terra larga e espectacular
    e só quero tocar a tua trança


    Esperam-nos em casa
    com teu consentimento
    diz por favor que jantamos juntos."

Livro: As junções
Autor: Hugo Milhanas Machado