jueves, 24 de febrero de 2011

Metáfora



   "A palavra metáfora, que significa transportar alguma coisa de um local para outro, tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer de um local para outro e outra que quer dizer transportar e consiste em descrever alguma coisa utilizando uma palavra que não corresponde a essa coisa. Isto significa que a palavra metáfora é uma metáfora.
   Acho que devia chamar-se uma mentira, porque as pessoas não rebentam a rir e não têm telhados de vidro. E quando tento visualizar a frase na minha cabeça, isso só me confunde, porque imaginar uma menina nos olhos de alguém não tem nada a ver com gostar muito de uma pessoa e faz com que nos esqueçamos do que a pessoa estava a dizer.
  O meu nome, Christopher, é uma metáfora. Significa transportar Cristo e tem a sua origem em uma palavra grega que quer dizer Jesus Cristo e outra que foi o nome dado a S. Cristóvão porque ele atravessou um rio, carregando Jesus Cristo.
   Isto faz-nos pensar em como ele se chamaria antes de atravessar o rio, carregando Cristo. Mas ele não se chamava coisa nenhuma pois esta é uma história apócrifa, o que significa que também é uma mentira".

Livro:  "O estranho caso do cão morto"
Autor: Mark Haddon

miércoles, 23 de febrero de 2011

Era uma vez...


" Por essa altura, descobri que toda a gente gosta que lhe contem histórias. As pessoas querem sair por um momento da realidade e viver os mundos de ficção dos filmes, dos folhetins radiofónicos, dos romances. Até gostam que lhes contem mentiras, se as mentiras forem bem contadas. Daí o êxito dos viagaristas hábeis no falar.
   Sem sequer ter pensado nisso, eu acabara por me tornar para eles uma fazedora de ilusões. Uma espécie de fada, como dizia a vizinha.
   As minhas narrações de filmes arrancavam-nos àquele nada acre que era o deserto e, ainda que fosse só por um bocadilho, transportavam-nos para mundos maravilhosos, plenos de amores, de sonhos e aventuras. Ao contrário do que acontecia vendo-os projectados num ecrã de cinema, nas minhas narrações cada qual podía imaginar esses mundos à sua vontade.
   Li em qualquer parte, ou vi num filme, que, quando os judeus eram transportados pelos alemães naqueles vagões de gado fechados -só com uma ranhura na parte de cima para deixar entrar um pouco de ar-, enquanto atravessavam as campinas com cheiro a erva húmida, escolhiam entre si o melhor narrador e, fazendo-o trepar sobre os ombros, içavam-no até à ranhura para que lhes fosse descrevendo a paisagem e contado o que via à passagem do comboio.
   Agora estou convencida de que devia haver muitos, entre eles, que preferiam imaginar aquelas maravilhas contadas por um companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura com os seus próprios olhos".

Livro: "A contadora de filmes"
Autor: Hernán Rivera Letelier

martes, 22 de febrero de 2011

Dalton



"Era uma vez um camaleão que não tinha jeito para as cores, aliás era mesmo daltónico. Sempre que era preciso mudar, mudava para a cor errada. Isto trazia muitas complicações e perigos, tanto para si como para o seu bando de camaleões, que já nem o podiam ver nem castanho, nem verde, nem amarelo, não o podiam mesmo ver a certa altura, porque ele era demasiado visível!, sempre mal camuflado... empurrando o pobre do Dalton para uma triste solidão. É que ele não acertava nunca, por ser daltónico e também trapalhão. Um dia, ao regressar com outros camaleões ao seu arbusto, duma festa de casamento onde tinham comido muito bem e bebido melhor, sopa de moscas azuis, a rara aranha da areia que só tem seis olhos como prato principal (não se come o veneno), soufflé de mosquito, pudim de formiga voadora, tudo regado com suco fermentado de gafanhoto... o Dalton vinha triste da festa porque casara a Maria Colorida, tão bonita, a camaleoa com a pele mais áspera do Algarve..."

Livro: Deixem passar o homem invisível
Autor: Rui Cardoso Martins

sábado, 19 de febrero de 2011

Fome



"Beijei-o e voltei a beijá-lo. Depois, impulsivamente, com a ponta da língua comecei a lamber a tinta da assinatura, com a paciência do gato que bebe o leite da tigela lambi tudo até ter desaparecido o "O", o "l", o "i", o "v", o segundo "i", o "a" -lambi até ter desaparecido por completo a cauda ascendente. Tinha bebido a caigrafia dela. Tinha-lhe comido o nome. Tinha feito um enorme esforço para não comer a carta toda".

Livro: Indignação
Autor: Philip Roth

lunes, 14 de febrero de 2011

14 de Fevereiro



"Somos todos mais inteligentes do que aparentamos e ter consciência da insanidade do amor nunca salvou ninguém da doença."

Livro: Ensaios de amor
Autor: Alain de Botton

miércoles, 9 de febrero de 2011

Clandestinos e contentes


"O teu amor mais o meu
e a cegada das silvas
a tarde raiava no fim
mas já tarde para a praia

Baixinho era o sol descia
passou um bicho que jamais esqueço
nos dias mais grandes e
confiados de miúdos

Ó camandro de paisagem
onde se vai esconder a gente?"

Livro: As junções
Autor: Hugo Milhanas Machado

Distância

"É estranho como os traços mais irritantes das pessoas que amamos se podem tornar encantadores quando já não estão presentes, quando elas, essas pessoas, já não estão presentes".

Livro: O grito da preguiça
Autor: Sam Savage