viernes, 27 de septiembre de 2013

O povo unido....



- ... de acordo? Por exemplo, o barco existe porque um rico deu dinheiro para o construir. Mas, mover-se-ia sem marinheiros e fogueiros? No mar, existem milhões de caranguejos. Por exemplo, fizeram-se muitos preparativos e para isso, é certo, houve um rico que soltou a massa. Mas se nós não trabalharmos, vêem um único caranguejo a entrar no bolso de um rico? Compreendem? Quanto dinheiro é que nós ganhámos a trabalhar este Verão? Os ricos, com este barco, tiram entre quatrocientos mil e quinhentos mil ienes limpos, por cabeça. E de onde sai esse dinheiro? De zero não se tira nada. Não o percebem? Deve-se tudo à nossa força. Ou seja, não façam agora essa cara sombria de moribundos. No fundo são eles que têm medo de nós. Não nos amedrontam.
       Se não houvesse marinheiros e fogueiros, o barco não navegaria. Se os operários não trabalharem, não entra nem um cêntimo no bolso dos ricos. O barco que dei como exemplo foi comprado e equipado com o dinheiro que se obteve espremendo o sangue a outros trabalhadores. Com o dinheiro que nos roubaram..."

Livro: O Navio dos Homens - Kanikosen
Autor: Takiji Kobayashi


martes, 24 de septiembre de 2013

Liderança



     "Antes da merenda, um grupo de colegas mais novos começou, sem motivo aparente, a fazer buracos num monte de terra fresca. Edgar encontrou um pedaço de uma fita métrica de pedreiro e decidiu começar a fiscalizar a profundidade dos buracos, que todos os rapazes escavavam com afinco e de forma espontânea. Teodoro, ajoelhado à frente do seu pequeno buraco, reparou que Edgar tinha adquirido uma posição determinante no grupo, porque toda a gente quería que ele aferisse a profundidade da sua cova, com aquele fragmento metálico de medição e alguns começaram mesmo a chamar-lhe engenheiro. Ora Teodoro, que tinha sido distingido com a melhor nota a Matemática, não podia tolerar aquilo, especialmente em Edgar, um dos piores alunos da turma. Teodoro é que deveria ser o engenheiro e jamais as circunstâncias poderiam alterar o que estava escrito no quadro de honra, por isso deixou de escavar, aproximou-se de Edgar, e já um poco envergonhado pelo que ia fazer, disse-lhe a meia-voz, "ouve lá, tu não podes ter essa responsabilidade, tiveste sempre negativa a Matemática e só passaste porque estudaste comingo!"

     Teodoro não concebia que, para além do saber fundamentado, outros factores pudessem alterar o curso dos acontecimentos e sobretudo que alguém sem uma dedicação total à escola pudesse ultrapassar quem tinha as melhores notas. Não podia aceitar que Edgar, na prática, pudesse ocupar um posto mais elevado do que ele, apenas pela estratégia da antecipação. Edgar olhou para ele e penso que não valia a pena argumentar, atirou com a fita metálica para o lado e viro-lhe as coas um pouco magoado.

     Teodoro, recém-empossado no cargo a que achava ter direito, tomou posse da fita métrica e voltou-se para o grupo para continuar a tarefa, à espera que lhe pedissem conselhos para a obra. Antes de qualquer pedido formal, começou a ditar algumas ordens e subitamente, tal como tinha surgido, o interesse pelos buracos perdeu-se. Talvez  porque quase todos tinham já atingido a profundidade equivalente ao tamanho dos seus braços e, aos poucos, todos acabaram por abandonar aquela posição curvada, com as mãos na terra, para se dirigirem a outros interesses.

      Teodoro ficou a olhar para a fita métrica inútil na mão direita, apenas com dois ou três buracos activos de retardatários que ainda não tinham reparado onde se situava a acção. Edgar tiha descoberto uma amendoeira podre que abanava por todos os lados e que era boa para mandar abaixo e fazer uma fogueira. Edgar estava encarregado de dizer onde se devia fazer força e qual a intensidade a aplicar".

Livro: Trás-os-Montes
Autor: Tiago Patrício

jueves, 8 de agosto de 2013

Ilusão




     "Durante várias semanas andei para ali às voltas à procura de um modo de começar. Estava sempre a repetir a mim mesmo que qualquer vida é inexplicável. Por mais factos que fossem contados, por mais pormenores que fossem fornecidos, o essencial resiste a qualquer tentativa de ser contado. Dizer que alguém nasceu aqui e foi para ali, que fez isto e aquilo, que casou com esta mulher e teve estes filhos, que viveu, que morreu, que deixou estes livros ou esta batalha ou aquela ponte -nada disso nos diz muito.  Todos queremos que nos contem histórias, e escutamo-las como fazíamos quando éramos jovens. Imaginamos a história verdadeira contida nas palavras, e para fazermos isso pomo-nos no lugar da pessoa de que a história fala, fingimos que podemos compreendê-la porque nos compreendemos a nós próprios. Isto é uma ilusão. Existimos por nós mesmos, talvez, e por vezes até conseguimos ter um vislumbre de quem somos, mas no fim nunca podemos ter a certeza, e conforme as nossas vidas continuam, tornamo-nos cada vez mais opacos para nós próprios, cada vez mais conscientes da nossa própria incoerência. Ninguém consegue atravessar a fronteira para entrar dentro de outra pessoa -pela simples razão de que ninguém tem acceso a si mesmo."

Livro: A Trilogia de Nova Iorque  (O Quarto Fechado)
Autor: Paul Auster

viernes, 14 de junio de 2013

Vender el pescado




     Se puede decir que dedicarse a vender bacalao a los países del sur ya no lo es todo. Un día llegas a Copenhague, de lo más elegante, y ¿qué sucede? En los periódicos te denominan "Barón de las salazones". Porque aunque el pescado salado sea una de las mercancías más caras para el transporte internacional, pues en cuanto se prensa se vuelve muy pesado, el pescado salado es, en sí y de por sí, una mercancía ridícula; y es justo, pues, como digo yo, queridos niños, apreciados tíos y tías, distinguidos compatriotas: al pescado hay que ponerle un lacito.
     Y no basta con ponerle un lazo danés al pescado islandés, sino que el lazo debe ser de fama internacional. Dicho en una sola palabra, hay que demostrar al mundo que el pescado canta; y que canta bien. Por eso, quienes vendemos pescado hemos dedicado ímprobos esfuerzos a la mejora del nivel cultural de nuestra nación, a fin de demostrar, dentro y fuera de nuestras fronteras, que somos una aristocracia que o se limita a sacar el pescado de las profundidades del mar, sino que además sabe ponerle un lazo en el pescuezo, para gozo del mundo entero, tal como aquí se dice: er ging in ein Wirsthaus hinein um zu Mittag zu essen.

Libro: El concierto de los peces.
Autor: Halldór Laxness

martes, 4 de junio de 2013

Toca saltar por la ventana y largarse



     "Es verdad que habría podido decidirse antes y de paso haber tenido la deferencia de comunicar su decisión a los interesados, pero Allan Karlsson nunca había dedicado tiempo a pensar las cosas antes de hacerlas.
     Por tanto, en cuanto la idea le vino a la cabeza, abríó la ventana de su habitación en el primer piso e la residencia de ancianos de Malmköping, provincia de Södermanland, y bajó por el emparrado hasta el arriate del jardín.
     La maniobra le resultó complicada, algo comprensible dado que ese mismo día Allan cumplía cien años. En menos de una hora se celebraría su fiesta de cumpleaños en el salón de la residencia. El mismísimo alcalde haría acto de presencia. Y la prensa local. Y el resto de los ancianos. Y el personal al completo, con la furibunda enfermera Alice a la cabeza, por supuesto.
     Sólo el homenajeado no tenía la intención de presentarse."

Libro: El abuelo que saltó por la ventana y se largó
Autor: Jonas Jonasson
    

martes, 21 de mayo de 2013

O cavalo de cartão



   "Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?; aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado, deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, acreditas? E nessa noite choveu. No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo de cartão estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei."

Livro: Nenhum Olhar
Autor: José Luís Peixoto

martes, 30 de abril de 2013

Iceland




     "- Y nuestro pueblo no volverá a ser azotado por exigir un precio digno para todas las mercancías -dijo Arnas Arneus-. Construiremos villas al estilo de otras naciones en torno a todos los puertos y crearemos una flota pesquera y venderemos pescado seco y géneros, como en los tiempos anteriores a los de Jón Arason, en las ciudades del continente, comprando a cambio mercancías dignas de hombres civilizados. Extraeremos de la tierra materias preciosas. El emperador enseñará el puño al rey danés y le exigirá que devuelva a los islandeses los objetos preciosos que hizo robar de la catedral de Hólar y de los monasterios de Munkathverá, Mödruvellir y Thingeyri. Asimismo serán devueltas las propiedades de que la Corono privó a la Iglesia islandesa después de su caída. Y se alzarán en Islandia universidades y colegios, en los que los estudiosos islandeses puedan vivir nuevamente una vida humana.

     - Y edificaremos palacios no menos soberbios que los que el gobernador Gyldenloeve se ha hecho construir en Dinamarca con el dinero de Islandia.

     - En Thingvellir se elevará una soberbia Casa de Justicia, y en su torre se colocará una campana más grande y más sonora que la que el rey mandó requisar y el verdugo ordenó derribar a Jón Hreggvidsson - dijo él.

     - Y la luna fría que se refleja en la Sima de los Ahogados dejará de ser el único consuelo de las mujeres pobres -dijo ella.

    - Y los mendigos hambrientos no volverán a ser ahorcados en nombre de la Justicia en el Almanngja -dijo él.

    - Y todos serán nuestros amigos nuestros porque todos vivirán bien.

    - Y la mazmorra será suprimida, porque en un país donde todos viven bien no se cometen crímenes.

    - Y nosotros dos cruzaremos el país en caballos blancos ... -dijo ella."

Libro: La campana de Islandia
Autor: Halldór Laxness