domingo, 11 de marzo de 2012

Better Man



137
É verdade "que um baixo amor os fortes enfraquece"
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo,
um roubo -apesar de, em sensações, ser magnífico.
O amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.

138
A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
O fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.

Livro: Uma viagem à Índia
Autor: Gonçalo M. Tavares

domingo, 4 de marzo de 2012

4 DE MARZO


    "Aleluya. El tiempo pasa y yo sigo viviendo, con los dolores y las ausencias de siempre pero sigo viviendo. Con la suerte y la muerte a la vista, con las golondrinas y los buitres, con el alma en pena y la cordura casi loca, con las cenizas del olvido y el pan duro de las promesas. Pero sigo viviendo.
     Aleluya. En alguna rara ocasión mi soledad se llena de prójimas y mis brazos abrazan y abrasan. Mi memoria viaja de noche en noche; mis jardines, de amanecer en amanecer.
     De todos los puentes cruzo el más frágil: el que une tu desolación con mi desconsuelo, y mi consuelo con tu desolación. Acaricio los pinos antes de que en el próximo vendaval besen el suelo.
     Aleluya. Cuando encuentre la verdad aún estaré a tiempo para llevar a mi infancia conmigo y clavarla luego como un afiche en la pared de la cocina. Nos vamos para volver; volvemos para irnos de nuevo. El tiempo es un viaje de escalas infinitas donde aprendemos y enseñamos algo.
     Aleluya. Piso tantos umbrales que los pies desnudos me arden. Desde esos umbrales imagino el infierno, pero de pronto recuerdo (aleluya x 2) que soy ateo, tanto de Dios como del diablo.
     Vivir aquí, en los arrabales del universo, no está tan mal. Dos por tres vienen pájaros curiosos, con su experiencia del espacio, y acaban colgándose en un crepúsculo de árboles. Crecimos en un exilio de la esperanza, sin advertir que era un exilio de la nada.
     Aleluya. La nada también puede ser todo y los otros también pueden ser nosotros. Si la tristeza nos empapa con su lluvia, digamos aleluya aleluya, primero despacito y luego en alarido, para que al fin nos encierren, así sea medio por azar, en las mazmorras de la alegría."

Libro: Vivir adrede
Autor: Mario Benedetti


miércoles, 22 de febrero de 2012

MALDADE


     "Pois, pois, pois... Tudo na natureza é razoável e explicável, meus queridos -suspirou Samóilenko. -Só há uma coisa que eu não percebo. Por favor, explica-me tu, que és um homem de grandioso intelecto. Existem animaizinhos que não são maiores do que uma ratazana, não sei se estás a ver, que são muito bonitos mas também altamente ignóbeis e imorais. O animal vai pela mata fora, por exemplo, vê um passareco, apanha-o e come-o. Anda mais um bocado, vê um ninho nas estevas, já não tem fome, está farto, mas mesmo assim parte um ovo com os dentes e com as patas atira os outros para forar. Depois encontra uma rã e começa a brincar com ela. Tortura a rã até à morte, segue o seu caminho, lambendo os beiços, e nisto aparece-lhe um bicharoco. Dá uma patada no bicharoco... Enfim, estraga tudo, destrói tudo o que lhe aparece pelo caminho... Mete-se nas tocas alheias, desbarata os formigueiros sem necessidade, trinca os caracóis... Às tantas encontra uma ratazana: entra logo em luta com ela; vê uma cobra pequena ou um ratito: tem de os estrangular. E assim o dia todo. Diz-me lá, então: para que é preciso um animal assim? Porque foi criado?"

Livro: O duelo
Autor: Anton Tchékhov

miércoles, 15 de febrero de 2012

Porto



   "Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oxímoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.

    Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de àgua no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado de Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel.

    Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria."

Livro: Abraço
Autor: José Luís Peixoto

lunes, 30 de enero de 2012

Guerras


   "Las nubes se desplazaban lentamente hacia el sur. Por muchas nubes que fluyeran, siempre aparecían otras, y otras más. Sin duda alguna, en las lejanas tierras del norte había una inagotable fuente que las proveía. Allí, una gente empecinada, ataviada con gruesos uniformes grises, fabricaba nubes en silencio de la mañana a la noche. Igual que las abejas fabrican miel, las arañas fabrican telarañas y la guerra fabrica viudas."

Libro: 1Q84 (Libro 3)
Autor: Haruki Murakami

sábado, 21 de enero de 2012

The writer

   

"Então minto-lhe para nos mantermos juntos. Para mantermos, enfim, algum tipo de equilíbrio. As histórias ajudam. Não me perguntes porquê, mas, quando começo a contar-lhe histórias, as coisas entre nós melhoram logo. Pensavas que eu tinha deixado de escrever ficção, mas não é verdade. Eu continuo a escrever ficção. O meu público agora resume-se a uma pessoa, mas essa pessoa é a única que realmente conta."

Livro: Leviathan
Autor: Paul Auster

sábado, 7 de enero de 2012

(Para além do) ADAMASTOR


          "Imaginei-o a encolher os ombros e a olhar para as luzes lá longe, do outro lado do rio. Estavam nos antípodas. Da mesa, do mundo e um do outro também.

           Ela casada. Ele solteiro. Ela ancorada. Ele farto de viajar, de correr o mundo, de viver em locais remotos da terra, nas montanhas em casas de pedra sem electricidade no meio da natureza. E desafiava:
- Há sempre um preço a pagar pelas opções que tomas. Tás a ver? Podes virar à direita ou à esquerda. Escolheste virar à esquerda? Azar. Morreste ali...

          Só queria ter visto a cara dela nesse momento mas, se me virasse, seria o fim. Ia ter de continuar a imaginá-los.

          A empregada passou por mim e sorriu. Eu devia estar com um ar um bocado fora de ali. Reparei então que ainda não tinha tocado na cerveja. Dei um golo para disfarçar. Senti as orelhas a arder por ser um "voyeur". Um expectador da vida alheia. Mas logo me recompus: Afinal, se os pintores se podiam inspirar na natureza, como poderei eu evitar escutar a voz humana? Lembrei-me de ir sentado no "Metro" a ouvir as conversas e a imaginar a vida daquelas pessoas.

          Ele continuava a falar:
- Eu paguei o preço em solidão.

          E ria-se, enquanto eu imaginava o o ar dela a tentar disfarçar o desconforto que as palavras dele lhe provocavam ao revelarem sem pudor aquilo em que a vida dela se havia transformado. Quando teria sido ao certo o momento da sua morte?  Tentou em vão lembrar-se do momento em que havia escolhido virar à esquerda.

         Ele não. Estava só, mas não lhe parecia pesar a solidão. Ele é que tinha abandonado todos. Estava por sua conta e risco e parecia dar-se bem com tal situação:
- Free... lance... dizia ele entre risadas"

Livro: Biografia não autorizada
Autor: João Moura