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miércoles, 22 de febrero de 2012

MALDADE


     "Pois, pois, pois... Tudo na natureza é razoável e explicável, meus queridos -suspirou Samóilenko. -Só há uma coisa que eu não percebo. Por favor, explica-me tu, que és um homem de grandioso intelecto. Existem animaizinhos que não são maiores do que uma ratazana, não sei se estás a ver, que são muito bonitos mas também altamente ignóbeis e imorais. O animal vai pela mata fora, por exemplo, vê um passareco, apanha-o e come-o. Anda mais um bocado, vê um ninho nas estevas, já não tem fome, está farto, mas mesmo assim parte um ovo com os dentes e com as patas atira os outros para forar. Depois encontra uma rã e começa a brincar com ela. Tortura a rã até à morte, segue o seu caminho, lambendo os beiços, e nisto aparece-lhe um bicharoco. Dá uma patada no bicharoco... Enfim, estraga tudo, destrói tudo o que lhe aparece pelo caminho... Mete-se nas tocas alheias, desbarata os formigueiros sem necessidade, trinca os caracóis... Às tantas encontra uma ratazana: entra logo em luta com ela; vê uma cobra pequena ou um ratito: tem de os estrangular. E assim o dia todo. Diz-me lá, então: para que é preciso um animal assim? Porque foi criado?"

Livro: O duelo
Autor: Anton Tchékhov