sábado, 17 de septiembre de 2011

TEA




     "No passado, quando me criticavam por fazer perguntas inesperadas, sentia-me envergonhado. Agora percebi-me de que as pessoas normais agem de maneira superficial e muitas vezes falsa. Por isso, em vez de permitir que me façam sentir mal, expresso o meu descontentamento. É a minha forma de tentar marcar um ponto a favor da lógica e da racionalidade.
      As dificuldades de conversação que sinto realçam um problema com que os portadores de Asperger se deparam diariamente. Uma persona com uma deficiência óbvia -a deslocar-se de cadeira de rodas, por exemplo-  é tratada com consideração porque a sua incapacidade é óbvia. Ninguém se vira para um tipo numa cadeira de rodas e diz: "Rápido! Vamos atravessar a rua a correr!" E, como ele não pode atravessar a rua a correr, ninguém lhe pergunta: "Qual é o seu problema?"  Oferecem-se para o ajudar a atravessar a rua.
      Eu, contudo, não exibo qualquer sinal exterior de uma incapacidade conversacional. Por isso, quando dou um passo em falso na conversa, alguém exclama: "Que idiota mais arrogante!"  Espero ansioso o dia em que a minha deficiência me permita desfrutar do mesmo respeito concedido a um fulano numa cadeira de rodas. E, se esse respeito vier acompanhado de um lugar reservado no parque de estacionamento, não direi que não."

Livro: Olha-me nos olhos
Autor: John Elder Robison

viernes, 26 de agosto de 2011

Ética



   "Quando os humanos se referem à nossa forma de actuar, dizem, depreciativamente, que funcionamos através do instinto. Como se o instinto não fosse uma forma superior de inteligência. Referem-se ao instinto como coisa inferior, precisamente porque não o possuem em grau tão apurado como nós.
    Apesar destas apreciações negativas em relação aos humanos, reconheço que temos algumas parecenças. Homens e gatos possuem a mesma região do cérebro responsável pelas emoções. Agora vejam como expressamos essas emoções: os homens manifestam-nas, bastas vezes, através das guerras, dos saques, da destruição lenta do planeta. Os gatos exprimem a emoção contemplando o sol, fazendo do mês de Janeiro a festa da renovação. E dormir, dormir imenso, para que os sonhos tenham todo o tempo do mundo para se manifestar. Ética. É isso. Ética que nos vem do facto de, apesar de sermos territoriais, o nosso código de liberdade rejeitar a propiedade privada.
   Não tarda nada, estou a ser rotulado de marxista..."

Livro: Sei onde mora o Herberto Helder
Autor: Manuel Monteiro

viernes, 19 de agosto de 2011

Brasil


" - Você não percebe? A voz do músico brasileiro João Gilberto é uma voz noturna.
  - Como assim?
  - Quando está muito tarde, a cidade está apagada e as pessoas estão em casa, 
    você repara que elas falam naturalmente num tom baixo?
  - Sim.
  - É uma voz que só se usa com quem se tem intimidade.
  - Shum?
  - O quê?
  - Talvez, um dia a gente possa se falar com as nossas vozes noturnas."

Livro: O único final feliz para uma história de amor é um acidente
Autor: João Paulo Cuenca

jueves, 18 de agosto de 2011

Scenic

    "Não posso dizer que as coisas entre mim e Alicia começaram a correr mal. Só que deixaram de ser tão boas. Não sei bem explicar porquê. Simplesmente um belo dia acordei e já não sentia o mesmo. Não gostava de não sentir o mesmo, porque aquele sentimento era bom, e sem ele sentia-me vazio, mas tinha desaparecido e não havia nada que eu pudesse fazer para o recuperar. Ainda tentei fingir que estava tudo na mesma, mas parecia-me que só o facto de tentar piorava a situação.
   Para onde tinha ido? Era como se tivesse havido imensa comida no nosso prato e nós a tivéssemos comido tão depressa que não sobrara nada. Talvez fosse assim que os casais sobrevivem: evitando ser gananciosos. Sabendo que o que têm no prato terá de durar muito tempo, tentando debicar a comida. Espero que não seja assim. Espero que, quando duas pessoas são felizes juntas, seja comose alguém lhes trouxesse segundas e terceiras doses de comida."

Livro: Slam
Autor: Nick Hornby


miércoles, 3 de agosto de 2011

Foram tantas as tormentas


   "Como o tio Victor me dissera num dia já longínquo, uma conversa assemelha-se a lançar e apanhar uma bola de baseball com alguém. Um bom parceiro atira a bola directamente para a nossa luva, de modo que é quase impossível nós não a apanharmos; quando somos nós a atirar a bola, esse parceiro apanha tudo o que nós lhe mandamos -mesmo os lançamentos mais transviados e incompetentes. Era exactamente isso que Kitty fazia. Lançava sempre a bola direitinha para a cova da minha luva, e, quando era eu a atirar-lhe a bola, não havia nada que ela não apanhasse: saltava para interceptar bolas que passavam muito acima da sua cabeça; mergulhava com agilidade, fosse para a esquerda, fosse para a direita; ou investia sem medo para apanhar bolas mesmo antes de caírem ao chão. Melhor ainda: a sua arte era tão perfeita, que me fazia sempre sentir que eu lançara mal as minhas bolas de propósito, como se o meu único objectivo fosse tornar o jogo mais divertido. Kitty fazia-me parecer melhor do que eu era, e isso fortalecia a minha confiança, o que, por sua vez, me ajudava a lançar-lhe bolas mais fáceis de apanhar. Por outras palavras: eu comecei a falar com ela, e não comigo mesmo, e o prazer que isso me dava era uma experiência única, incomparável, algo que eu não vivia havia muitos anos."

Livro: Palácio da lua
Autor: Paul Auster

sábado, 16 de julio de 2011

Contos

   "Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, mas longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada sem saltar nada."
Livro: Contos de Eva Luna
Autora: Isabel Allende

lunes, 11 de julio de 2011

Relógio



   "Para me sentir menos só pus-me a olhar para o mostrador do meu relógio. Eram sete menos dez. Muito tempo depois, para aí umas duas ou três horas, eram sete menos cinco."

Livro: Relato de un naúfrago
Autor: Gabriel García Márquez