miércoles, 21 de marzo de 2012
O amor é português
"Depois bate fundo o mar
ali onde as pedras encostam
e há anos sobravam as pedras
pedras redondas ao sol."
Livro: As junções
Autor: Hugo Milhanas Machado
lunes, 19 de marzo de 2012
O tempo
Livro: O homem que sonhava ser Hitler
Autor: Tiago Rebelo
lunes, 12 de marzo de 2012
Poema à mãe
No mais fundo de ti
eu sei que te trai, mãe
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
eu sei que te trai, mãe
Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
era uma vez uma princesa
no meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Livro: Antologia
Autor: Eugénio de Andrade
domingo, 11 de marzo de 2012
Better Man
137
É verdade "que um baixo amor os fortes enfraquece"
mas também o grande amor torna ridículos os grandes,
pois o amor é, em energia material sobre o mundo,
um roubo -apesar de, em sensações, ser magnífico.
O amor será útil internamente,
mas externamente não carrega um tijolo.
Disso nunca tive dúvidas.
138
A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.
Nos países humanos, o amor mistura-se muito
com palavras equívocas.
O fogo que existe numa lareira, por exemplo,
é um fogo servil, cultural, educado.
Uma coisa vermelha, mas mansa,
que nos obedece.
Só é natureza, o fogo na lareira,
quando, vingando-se, provoca um incêndio.
E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.
Livro: Uma viagem à Índia
Autor: Gonçalo M. Tavares
domingo, 4 de marzo de 2012
4 DE MARZO
"Aleluya. El tiempo pasa y yo sigo viviendo, con los dolores y las ausencias de siempre pero sigo viviendo. Con la suerte y la muerte a la vista, con las golondrinas y los buitres, con el alma en pena y la cordura casi loca, con las cenizas del olvido y el pan duro de las promesas. Pero sigo viviendo.
Aleluya. En alguna rara ocasión mi soledad se llena de prójimas y mis brazos abrazan y abrasan. Mi memoria viaja de noche en noche; mis jardines, de amanecer en amanecer.
De todos los puentes cruzo el más frágil: el que une tu desolación con mi desconsuelo, y mi consuelo con tu desolación. Acaricio los pinos antes de que en el próximo vendaval besen el suelo.
Aleluya. Cuando encuentre la verdad aún estaré a tiempo para llevar a mi infancia conmigo y clavarla luego como un afiche en la pared de la cocina. Nos vamos para volver; volvemos para irnos de nuevo. El tiempo es un viaje de escalas infinitas donde aprendemos y enseñamos algo.
Aleluya. Piso tantos umbrales que los pies desnudos me arden. Desde esos umbrales imagino el infierno, pero de pronto recuerdo (aleluya x 2) que soy ateo, tanto de Dios como del diablo.
Vivir aquí, en los arrabales del universo, no está tan mal. Dos por tres vienen pájaros curiosos, con su experiencia del espacio, y acaban colgándose en un crepúsculo de árboles. Crecimos en un exilio de la esperanza, sin advertir que era un exilio de la nada.
Aleluya. La nada también puede ser todo y los otros también pueden ser nosotros. Si la tristeza nos empapa con su lluvia, digamos aleluya aleluya, primero despacito y luego en alarido, para que al fin nos encierren, así sea medio por azar, en las mazmorras de la alegría."
Libro: Vivir adrede
Autor: Mario Benedetti
miércoles, 22 de febrero de 2012
MALDADE
"Pois, pois, pois... Tudo na natureza é razoável e explicável, meus queridos -suspirou Samóilenko. -Só há uma coisa que eu não percebo. Por favor, explica-me tu, que és um homem de grandioso intelecto. Existem animaizinhos que não são maiores do que uma ratazana, não sei se estás a ver, que são muito bonitos mas também altamente ignóbeis e imorais. O animal vai pela mata fora, por exemplo, vê um passareco, apanha-o e come-o. Anda mais um bocado, vê um ninho nas estevas, já não tem fome, está farto, mas mesmo assim parte um ovo com os dentes e com as patas atira os outros para forar. Depois encontra uma rã e começa a brincar com ela. Tortura a rã até à morte, segue o seu caminho, lambendo os beiços, e nisto aparece-lhe um bicharoco. Dá uma patada no bicharoco... Enfim, estraga tudo, destrói tudo o que lhe aparece pelo caminho... Mete-se nas tocas alheias, desbarata os formigueiros sem necessidade, trinca os caracóis... Às tantas encontra uma ratazana: entra logo em luta com ela; vê uma cobra pequena ou um ratito: tem de os estrangular. E assim o dia todo. Diz-me lá, então: para que é preciso um animal assim? Porque foi criado?"
Autor: Anton Tchékhov
miércoles, 15 de febrero de 2012
Porto
"Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oxímoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.
Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de àgua no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado de Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel.
Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria."
Livro: Abraço
Autor: José Luís Peixoto
Suscribirse a:
Entradas (Atom)





