sábado, 11 de junio de 2011

Spanish Evolution










   "O mais absoluto desespero pode coexistir com a mais fascinante criatividade; a entropia e o florescimento andam a par. Como já nos resta tão pouco, não deitamos nada fora, e as pessoas acabam por dar um novo uso a determinados materiais que, outrora, desprezavam como lixo. Tudo isto tem a ver com um novo modo de pensar. A penúria obriga a mente a soluções inovadoras, e damos por nós dispostos a alimentar ideias que, anteriormente, nunca nos teriam ocorrido."

Livro: No país das últimas coisas
Autor: Paul Auster

martes, 7 de junio de 2011

Esplendor de Portugal


   "A labuta prosseguiu, mas dolorosa e veloz, até que a buza da Fábrica Grande, qual sineta de alarme, pôs em debandada os garotos. Enquanto uns se estenderam de borco na margem do río, outros, que moravan longe, correram para casa, tão depressa quanto lhes permitiam as pernas trôpegas.
    Dorido, a coxear, Gaitinhas foi ao canto do forno, onde deixara o saquitel de pão com azeitonas; mas o almoço tinha levado sumiço. Procurou em redor; mirou a comida dos companheiros, sentados à sombra. Depois, fitando o chão, acocorou-se também com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos.
    Sagui apareceu, todo besuntado de lama.  - Não comes, Gaitinhas?
    - Roubaram-me a saca...
    - Já espreitaste aqueles gajos ali?
    - Já, pois. Mas são tantos a comer pão e azeitonas...
    - Deixa. Eu reparto contigo. "

Livro: "Esteiros"
Autor: Soeiro Pereira Gomes

martes, 31 de mayo de 2011

Indignação



"Podiam cortar-lhes as mãos e eles continuavam -usavam as próteses para desenharem o seu nome na areia. Podiam enforcá-los e a resposta que eles davam ao mundo no seu derradeiro momento era uma orgulhosa erecção (os homens, as mulheres talvez uma secreção) -seguida de um esguincho de fezes, a sugerir que se estavam borrifando para esta merda."

Livro: "O destino turístico"
Autor: Rui Zink

domingo, 8 de mayo de 2011

Dia "I"


   "Ninguém compreendeu como, por exemplo, todas as 387 silhuetas do Toro de Osborne repartidas pela Red de Carreteras Nacionales, da Corunha a Girona, de Santander a Huelva, de Gasteiz a Mijas, até em Lanzarote e Menorca, amanheceram com um garrafal `i´ pintado no lombo".

Livro: Iberiana
Autor: João Lopes Marques

lunes, 2 de mayo de 2011

Fruto proibido


   "Pedro disse que se a Senhora Pinheiro apanhasse uma criança a roubar os seus pêssegos ela lhe bateria com uma vara de metal e o atiraria para as urtigas. Disse que uma vez, há muito tempo, ela tinha batido num rapaz com tanta força que ele tinha ficado com o cérebro sacudido e depois disso já não sabia falar português, só espanhol, por ser tão estúpido. Jay sabia que isso era uma piada, mas a primeira vez que a Senhora Pinheiro o tinha apanhado a roubar tinha tido tanto medo que tinha urinado -só um pouco- nas calças."

Livro: Alentejo blue
Autor: Monica Ali  

sábado, 30 de abril de 2011

Reservas


   "Toda a gente diz que eu deixo as pessoas doidas -especialmente a minha mulher. Eu nunca lhe digo que ela está um espanto, uma beleza, um espectáculo ou simplesmente bonita (nem mesmo quando acho que está). Não, em vez disso, digo-lhe que está `bem´. Ela responde que `bem´está a mãe dela. Eu digo-lhe que `bem´ é bom -é óptimo. Para mim, pelo menos, é bom. Imaginem que um dia ela está mesmo um espectáculo e que, no dia seguinte, ainda está melhor! Se lhe digo que está um espectáculo, fico sem nada de reserva. E uma pessoa precisa sempre de ter qualquer coisa de reserva".

Livro: Pensei que o meu pai era deus.
Autor: Paul Auster.

jueves, 28 de abril de 2011

Agujeros de la memoria


   "El poeta Juan Gelman escribió hace años con su habitual sabiduría que `en la memoria hay palabras que no se pueden decir. Duran y hacen mal y bien, como un caballo loco´.
   Agregemos, ahora de nuestra cosecha, que el caballo loco aprovecha los agujeros de la memoria para fugarse y a veces refugiarse en la guarida del infinito.
   Nos pasamos la vida creando y perdiendo memoria. Como el pasado, a medida que pasan los años, crece en espacio, lo recordado también debería crecer. Sin embargo, gracias al trabajo tenaz del olvido, el pasado se va reduciendo y apenas nos deja unas pocas señales para que sepamos quiénes fuimos y también quiénes somos.
   Los agujeros de nuestra memoria también nos permiten atisbar a otras memorias, que a su vez nos atisban desde sus propios agujeros.
   Después de todo, el que sigue creciendo es el infinito y por eso no tiene fin."

Libro: Vivir adrede
Autor: Mario Benedetti