"O coração do seu pai alegrava-se com o filho, inteligente e sedento de sabedoria; via crescer nele um grande sábio e sacerdote, um príncipe entre os brâmanes.
O peito da sua mãe sofria ao olhar para ele, ao vê-lo caminhar, sentar-se perto dela e levantar-se; Siddhartha, o forte, o belo, aquele que caminha com pernas elegantes, aquele que a saúda com delicadeza.
O coração das jovens filhas dos brâmanes agitava-se de amor quando Siddhartha passava pelas ruas da cidade, com a sua fonte luminosa, com o seu olhar real, com a sua anca delgada.
Mais do que todos eles, no entanto, amava-o Govinda, o seu amigo, o filho do brâmane. Amava o olhar de Siddhartha e a sua voz gentil, amava o seu andar e a perfeita graciosidade dos seus movimentos, amava tudo o que Siddhartha dizia e fazia e, acima de tudo, amava o seu espírito, os seus pensamentos elevados e ardentes, os seus desejos impetuosos, a sua vocação nobre. Govinda sabia: este não viria a ser um brâmane vulgar, um preguiçoso funcionário encarregue dos sacrifícios, um ganancioso comerciante de encantamentos, um orador vaidoso e vazio, um sacerdote maldoso e pérfido, tal como não viria a ser uma ovelha boa e tola no rebanho da multidão. Não, e também ele, Govinda, não queria tornar-se um tal brâmane, como outros mil que existiam. Queria seguir Siddhartha, o bem-amado, o magnífico. E quando Siddhartha, enfim, se tornasse um deus e entrasse no reino resplandecente, Govinda queria segui-lo, como seu amigo, como seu companheiro, como seu servidor, seu pajem, sua sombra."
Livro: Siddhartha
Autor: Hermann Hesse
