lunes, 10 de septiembre de 2012

Destino



"Já Dostoievski nos mostrou como Deus nos dá ao mesmo tempo liberdade e responsabilidade: não é um Mestre benevolente que nos assegure a salvação, mas alguém que nos recorda que dependemos inteiramente do que nós próprios fizermos. Este paradoxo habita o núcleo da ideia protestante de predestinação: a predestinação não significa que, estando tudo de antemão determinado, não somos realmente livres, mas implica antes uma liberdade ainda mais radical do que a entendemos no sentido corrente -a liberdade de determinarmos retroactivamente (quer dizer, de transformarmos) o nosso próprio destino.

O Deus que aqui encontramos assemelha-se muito ao que aparece na anedota bolchevique sobre um propagandista comunista talentoso que, depois da morte, é mandando para o Inferno. Consegue rapidamente convencer os guardas do Inferno a deixarem-no mudar-se para o Céu. Quando o Diabo dá conta da sua ausência, vai visitar Deus, para lhe pedir o regresso do propagandista ao Inferno. No entanto, quando começa a sua exposição pronunciando as palavras "Meu Senhor...", o Diabo é interrompido por Deus, que lhe diz: "Primeiro, não sou o teu Senhor, mas um camarada. Segundo, deves estar doido para te pores a falar com uma ficção como eu, que nem sequer existo! E, terceiro, despacha-te, ou fazes-me chegar atrasado à reunião do Partido!". Tal é a espécie de Deus hoje necessário à esquerda radical: um Deus que plenamente "se fez homem", um camarada no meio de nós, crucificado na companhia de dois marginais, que não só "não existe", como ele próprio o sabe, aceita a sua própria anulação, fundindo-se inteiramente no amor que liga todos os membros do "Espírito Santo" -quer dizer, do Partido ou do colectivo emancipatório."

Livro: Viver no fim dos tempos
Autor: Slavoj Žižek

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