No fundo da alma dos portugueses há uma vontade de contrariar. No elevador de um prédio de Lisboa ouvi certa vez um grupo de empregados de escritório a queixarem-se de uma nova regra de que não gostavam e um deles comentou: "Um bom português nunca está de acordo." Riram-se todos. O comentário vinha mesmo a propósito e o seu cepticismo acerca da autoridade fornecia um sentido de cumplicidade que é uma poderosa forma de ligação nacional. O autor alemão Hans Magnus Enzensberger vislumbrou neste comportamento "uma espécie de sabotagem silenciosa que não deriva da raiva, nem da convicção, nem do rancor, nem da ideologia, nem da teimosia, como nos outros países". É como se os portugueses fossem rebeldes sem uma causa, prontos a libertar uma revolta contra a opressão sem alvo. E o rancor existe de facto. Numa das mais precisas e exactas descrições que alguma vez encontrei sobre Portugal, o poeta Miguel Torga, em 1950, descreveu o seu país como "um pacífico colectivo de pessoas revoltadas".
Os portugueses sentem que o destino lhes reservou pouca sorte e erguem o punho contra o que lhes calhou na vida mas, por via de regra, não expressam esta indignação de uma forma constructiva. Tornam-se meio marginais para quem contornar a lei oferece a emoção da transgressão bem sucedida. Se os serviços públicos como o sistema legal, a educação e o serviço nacional de saúde fossem melhor dirigidos, as pessoas sentiriam que cuidavam delas, como se alguém estivesse encarregado de se certificar de que estavam todas bem. Em vez disso, sentem-se enganadas, aldrabadas e inclinadas a procurar a sua vingança através da má conducta. É uma insurreição domesticada.
Livro: Os portugueses
Autor: Barry Hatton





