lunes, 8 de octubre de 2012
No es lo único
"-Ya sé que estoy enfermo. Pero no es lo único que estoy. Uno no está todo el tiempo con eso en la cabeza. O yo no estoy. No sé los demás. Pero yo no. No puedo estar dándome máquina veinticuatro horas al día. ¿O ustedes están todo el día pensando en lo mismo? Yo no, ni en pedo. No puedo estar todo el día meta y meta dándome manija con el cáncer, boludo. De si me dijeron esto, o me dijeron lo otro, de si me hace mal este tratamiento, de si mejor hago el otro, de si los análisis me dieron mejor o me dieron para el orto, de si le doy bola al oncólogo o le doy bola al clínico, o le doy pelota al que me hizo la última tomografía y me recomendó lo que mierda sea. ¿No se dan cuenta? No puedo estar todo el día pensando en eso. Hace seis meses me dijeron que tenía cáncer y que estaba al horno con papas. Bueno. Pero yo sigo vivo.
- Por suerte, Monito...
- No, Ruso, no me entendés. Cuando digo que sigo vivo no estoy con la sanata pelotuda de que sigo luchando, de que sigo apostando por la vida y toda la boludez. Me refiero a que me siguen pasando cosas. A veces tengo hambre, a veces tengo ganas de coger, a veces tengo bronca, a veces quiero llamarla a Lourdes y decirle que es una hija de puta. Pero no bronca por estar enfermo. Digo bronca por lo que sea, ¿entienden? No es que me enfermé y me convertí en otro, boludo. Sigo siendo yo."
- ...
- ...
lunes, 10 de septiembre de 2012
Destino
"Já Dostoievski nos mostrou como Deus nos dá ao mesmo tempo liberdade e responsabilidade: não é um Mestre benevolente que nos assegure a salvação, mas alguém que nos recorda que dependemos inteiramente do que nós próprios fizermos. Este paradoxo habita o núcleo da ideia protestante de predestinação: a predestinação não significa que, estando tudo de antemão determinado, não somos realmente livres, mas implica antes uma liberdade ainda mais radical do que a entendemos no sentido corrente -a liberdade de determinarmos retroactivamente (quer dizer, de transformarmos) o nosso próprio destino.
O Deus que aqui encontramos assemelha-se muito ao que aparece na anedota bolchevique sobre um propagandista comunista talentoso que, depois da morte, é mandando para o Inferno. Consegue rapidamente convencer os guardas do Inferno a deixarem-no mudar-se para o Céu. Quando o Diabo dá conta da sua ausência, vai visitar Deus, para lhe pedir o regresso do propagandista ao Inferno. No entanto, quando começa a sua exposição pronunciando as palavras "Meu Senhor...", o Diabo é interrompido por Deus, que lhe diz: "Primeiro, não sou o teu Senhor, mas um camarada. Segundo, deves estar doido para te pores a falar com uma ficção como eu, que nem sequer existo! E, terceiro, despacha-te, ou fazes-me chegar atrasado à reunião do Partido!". Tal é a espécie de Deus hoje necessário à esquerda radical: um Deus que plenamente "se fez homem", um camarada no meio de nós, crucificado na companhia de dois marginais, que não só "não existe", como ele próprio o sabe, aceita a sua própria anulação, fundindo-se inteiramente no amor que liga todos os membros do "Espírito Santo" -quer dizer, do Partido ou do colectivo emancipatório."
Livro: Viver no fim dos tempos
Autor: Slavoj Žižek
viernes, 31 de agosto de 2012
Ter ou não ter
"A divisão entre ter e não ter é meramente a consequência lógica de se confiar, em maior ou menor escala, num mecanismo de mercado. Os mercados separam os eficientes dos ineficientes. Esta é a sua essência. Os mercados reconhecem a eficiência e essa deve ser a única coisa que eles entendem. Uma sociedade baseada nas leis da naturaleza, em detrimento do principio da educação, está destinada a ser un sitio onde é difícil viver-se. Se aplicarmos meticulosamente esta lógica, acabamos com duas colunas: os afortunados e os condenados. De facto, quanto mais assiduamente se aplique o princípio, mais nítidas e mais elevadas se tornam as colunas.
A eficiência e a afinidade não compõem necessariamente um casal feliz."
Livro: Capitalismo Karaoke
Autores: Jonas Ridderstrale & Kjell A. Nordström
miércoles, 29 de agosto de 2012
O ídolo
"Todo o estádio se levantou e aplaudiu e aclamou o grande campónio, e a ovação foi tão longa e tão estrondosa que, quando acabou, muitos eram os espectadores que piscavam os olhos numa vã tentativa para afastar as lágrimas.
Este deveria ter sido o adeus. O valente guerreiro despede-se dos seus admiradores com uma última vénia e afasta-se num passo lento até que desaparece ao longe, envolto pelo imenso sol que, também ele, se despede. Eu teria aceitado isso e ter-lhe-ia prestado a devida homenagem, mas Dean era demasiado bronco para compreender essas coisas e aquele tremendo clamor de adeus entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe logo pelo outro. Aí estava uma coisa que me deixava completamente fora de mim: aquele filho da mãe não sabia quando deveria parar!"
Livro: Mr. Vertigo
Autor: Paul Auster
jueves, 16 de agosto de 2012
MARIA DAS QUIMERAS
Maria das Quimeras me chamou
Alguém... Pelos castelos que eu ergui,
Plas flores de oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.
Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh´alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi,
Que da minh´alma, Alguém, tudo levou!
Maria das Quimeras, que fim deste
As flores de oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?
Pelo mundo, n avida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?
Livro: Sonetos
Autor: Florbela Espanca
lunes, 6 de agosto de 2012
Voyage, voyage
"O Verão de 1987 foi diferente. Anunciava mudança. Tenro nos meus 15 anos, não só conheci a minha primeira namorada, Laia, uma catalã nacionalista de Girona, como era a primeira vez que sozinho viajava fora das fronteiras de Portugal. Rumei a um desses campos de educação ambiental que, para nossa sorte, teve o santuário andaluz de El Rocío como cenário.
Muito me familiarizei com as marismas de Huelva, com a Blanca Paloma e com a impressionante fauna do Parque Nacional de Doñana, um luxo ibérico.
Não obstante, a grande revolução na minha vida tinha epicentro em França. Ou Bélgica, nunca percebi bem. Enquanto nos pátios traseiros ensaiávamos alguns passos de sevilhana, os radialistas da Cadena Ser insistiam num sórdido braço-de-ferro: Voyage, voyage. A canção, passava no éter a cada 10 minutos. Adolescentes encantados, deslumbrados entre dois beijos nos lábios, e não esquecer a beleza dos crespúsculos de Junho nem os acampamentos promíscuos em Matalascañas, estacávamos.
Voyage, voyage: a fantasia era colectiva."
Livro: Choque cultural
Autor: João Lopes Marques
Amado Jorge
"El perfume de clavo llenaba la habitación, el calor que venía del cuerpo de Gabriela envolvió a Nacib, quemaba su piel y el rayo lunar moría en la cama. En un susurro, entre besos, la voz de Gabriela agonizaba.
-Mozo lindo..."
Libro: Gabriela, clavo y canela
Autor: Jorge Amado
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