jueves, 18 de agosto de 2011

Scenic

    "Não posso dizer que as coisas entre mim e Alicia começaram a correr mal. Só que deixaram de ser tão boas. Não sei bem explicar porquê. Simplesmente um belo dia acordei e já não sentia o mesmo. Não gostava de não sentir o mesmo, porque aquele sentimento era bom, e sem ele sentia-me vazio, mas tinha desaparecido e não havia nada que eu pudesse fazer para o recuperar. Ainda tentei fingir que estava tudo na mesma, mas parecia-me que só o facto de tentar piorava a situação.
   Para onde tinha ido? Era como se tivesse havido imensa comida no nosso prato e nós a tivéssemos comido tão depressa que não sobrara nada. Talvez fosse assim que os casais sobrevivem: evitando ser gananciosos. Sabendo que o que têm no prato terá de durar muito tempo, tentando debicar a comida. Espero que não seja assim. Espero que, quando duas pessoas são felizes juntas, seja comose alguém lhes trouxesse segundas e terceiras doses de comida."

Livro: Slam
Autor: Nick Hornby


miércoles, 3 de agosto de 2011

Foram tantas as tormentas


   "Como o tio Victor me dissera num dia já longínquo, uma conversa assemelha-se a lançar e apanhar uma bola de baseball com alguém. Um bom parceiro atira a bola directamente para a nossa luva, de modo que é quase impossível nós não a apanharmos; quando somos nós a atirar a bola, esse parceiro apanha tudo o que nós lhe mandamos -mesmo os lançamentos mais transviados e incompetentes. Era exactamente isso que Kitty fazia. Lançava sempre a bola direitinha para a cova da minha luva, e, quando era eu a atirar-lhe a bola, não havia nada que ela não apanhasse: saltava para interceptar bolas que passavam muito acima da sua cabeça; mergulhava com agilidade, fosse para a esquerda, fosse para a direita; ou investia sem medo para apanhar bolas mesmo antes de caírem ao chão. Melhor ainda: a sua arte era tão perfeita, que me fazia sempre sentir que eu lançara mal as minhas bolas de propósito, como se o meu único objectivo fosse tornar o jogo mais divertido. Kitty fazia-me parecer melhor do que eu era, e isso fortalecia a minha confiança, o que, por sua vez, me ajudava a lançar-lhe bolas mais fáceis de apanhar. Por outras palavras: eu comecei a falar com ela, e não comigo mesmo, e o prazer que isso me dava era uma experiência única, incomparável, algo que eu não vivia havia muitos anos."

Livro: Palácio da lua
Autor: Paul Auster

sábado, 16 de julio de 2011

Contos

   "Por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonhos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis. Também vendia contos, mas não eram contos de fantasia, mas longas histórias verdadeiras que recitava de enfiada sem saltar nada."
Livro: Contos de Eva Luna
Autora: Isabel Allende

lunes, 11 de julio de 2011

Relógio



   "Para me sentir menos só pus-me a olhar para o mostrador do meu relógio. Eram sete menos dez. Muito tempo depois, para aí umas duas ou três horas, eram sete menos cinco."

Livro: Relato de un naúfrago
Autor: Gabriel García Márquez

viernes, 24 de junio de 2011

Refúgio


   "... e para que servia um lar se um cão não se sentia seguro nele, se um cão era tratado como um pária precisamente no local que deveria ser o seu refúgio? Não estava certo encerrar uma alma numa caixa escura. Era isso que faziam depois de morrermos; mas enquanto estivéssemos vivos, enquanto houvesse en nós um resto que fosse de vida, tínhamos o dever -perante nós mesmos e perante tudo o que havia de sagrado neste mundo- de não nos vergarmos a tais indignidades. Estar vivo significava respirar; respirar significava ar livre; e ar livre significava tudo menos ..."

Livro: "Timbuktu"
Autor: Paul Auster

sábado, 11 de junio de 2011

Spanish Evolution










   "O mais absoluto desespero pode coexistir com a mais fascinante criatividade; a entropia e o florescimento andam a par. Como já nos resta tão pouco, não deitamos nada fora, e as pessoas acabam por dar um novo uso a determinados materiais que, outrora, desprezavam como lixo. Tudo isto tem a ver com um novo modo de pensar. A penúria obriga a mente a soluções inovadoras, e damos por nós dispostos a alimentar ideias que, anteriormente, nunca nos teriam ocorrido."

Livro: No país das últimas coisas
Autor: Paul Auster

martes, 7 de junio de 2011

Esplendor de Portugal


   "A labuta prosseguiu, mas dolorosa e veloz, até que a buza da Fábrica Grande, qual sineta de alarme, pôs em debandada os garotos. Enquanto uns se estenderam de borco na margem do río, outros, que moravan longe, correram para casa, tão depressa quanto lhes permitiam as pernas trôpegas.
    Dorido, a coxear, Gaitinhas foi ao canto do forno, onde deixara o saquitel de pão com azeitonas; mas o almoço tinha levado sumiço. Procurou em redor; mirou a comida dos companheiros, sentados à sombra. Depois, fitando o chão, acocorou-se também com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos.
    Sagui apareceu, todo besuntado de lama.  - Não comes, Gaitinhas?
    - Roubaram-me a saca...
    - Já espreitaste aqueles gajos ali?
    - Já, pois. Mas são tantos a comer pão e azeitonas...
    - Deixa. Eu reparto contigo. "

Livro: "Esteiros"
Autor: Soeiro Pereira Gomes