miércoles, 27 de abril de 2011
"Toda a gente quer fazer amor à beira-mar, coberta de espuma, ao som do choro das gaivotas, mas nem sempre é uma maravilha. A areia pode meter-se no fato de banho, a àgua pode sabotar a lubrificação da rapariga, salgando-lhe os lábios como se fossem caras de bacalhau, ou ser tão fria que obrigue os tomates ao recolher obrigatório, deixando a erecção entregue a si própria, tornando um pau febril numa pilinha congelada, dura mas insensível, imitação pobre do `rigor mortis´.
Em contrapartida, depois de um bom jantar numa tasquinha escondida na floresta, dobrar um guardanapo bem engomado, enquanto se olha para o amor da nossa vida, pode ser o paraíso."
Livro: A vida inteira
Autor: Miguel Esteves Cardoso
lunes, 25 de abril de 2011
Espelhos
"Olha-se na montra de uma livraria. Sessenta anos. Alto. Grisalho. O nariz aquilino, o rostro magro. `Merda´, vê-se obrigado a concluir. Perscruta o reflexo dos seus próprios olhos no vidro. Uma namorada que teve em jovem costumava troçar da sua mania de se olhar nas montras. Nem a ela, nem a nenhuma das outras mulheres que passaram pela sua vida, chegou Chaparro a confessar a verdade: o seu hábito de se olhar ao espelho não tem nada que ver com adorar-se ou gostar de si. Sempre foi nada mais nada menos que uma nova tentativa de saber quem raio vem ele próprio a ser."
Livro: O segredo dos seus olhos
Autor: Eduardo Sacheri
domingo, 24 de abril de 2011
Esperanças e utopias
"Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias."
Livro: O Caderno
Autor: José Saramago
domingo, 17 de abril de 2011
Iberiana
"Usei e abusei do altar que Eduard improvisara no estábulo secreto da sua casa. Nessas primeiras semanas em Tbilissi nem ousei sair à rua: menos por cobardia do que pela fadiga que naqueles longos meses de viagem se apoderara do esqueleto do Redentor. Fragilizado, triunfava quase sempre uma copiosa vontade de chorar; somente a reclusão para tentar descodificar esta insondável barbárie do homen".
Livro: Iberiana
Autor: João Lopes Marques
viernes, 11 de marzo de 2011
Japão
"Queres saber o que me parece? Pois bem, parece-me que a maioria das pessoas vive a pensar que a vida e o mundo (e o diabo a sete) são, tirando algumas excepções, fundamentalmente lógicos e coerentes (ou deveriam sê-lo). Cheguei muitas vezes a esta conclusão falando com os que me rodeiam. Quando acontece alguma coisa, seja no terreno social ou no plano individual, há sempre alguém que diz: 'Ah, isto aconteceu porque aquilo eram assim e assado...´, e quase sempre estão todos de acordo e respondem: `Ah, pois claro, é verdade, é verdade...´ E isto é uma coisa que não me entra na cabeça. Dizer coisas do género `aconteceu isto por causa daquilo´e `por isso aconteceu o que aconteceu´não explica nada. É como meter um chawan mushi instantâneo dentro do microondas, carregar no botão e, quando soa o `tin´, abrir a porta, tirar a tampa e verificar que o prato que escolheste está pronto! Quer dizer, o que é que aconteceu entretanto debaixo da tampa? Pode muito bem ter acontecido que o chawan mushi instantâneo primeiro se tenha convertido em macarrão gratinado com queijo e só depois passado a ser chawan mushi sem que ninguém desconfiasse de nada."
Livro: Crónica do Pássaro de Corda
Autor: Haruki Murakami
martes, 1 de marzo de 2011
Viento fuerte
" - El pájaro sube y baja la cabeza y se ajusta a la oscilación de la rama. La próxima vez que sople un viento fuerte observa bien a los pájaros. Yo me paso mucho tiempo mirando por la ventana. ¿No te parece que debe de ser agotadora una vida así? Vivir moviendo el cuello a cada oscilación de la rama en la que estás posado. Pero los pájaros están acostumbrados. Para ellos eso es lo más natural. Pueden hacerlo sin ser conscientes de ello. Por eso no les resulta tan cansado como nos parece a nosotros. Pero yo soy un ser humano y, a veces, me canso.
- ¿Está usted posada en una rama?
- Según como lo mires -dice-. Y, a veces, sopla un viento fuerte."
Libro: Kafka en la orilla
Autor: Haruki Murakami
sábado, 26 de febrero de 2011
Arca de Noé
"- Adorava fumar uma a curtir a Southern Cross.
- O que é isso? Uma organização não-governamental? -quis certificar-se Birgiitt.
- Estás-te a passar! É uma constelação que só consegues ver no hemisfério sul! É por
causa dela que a bandeira portuguesa tem cinco quinas!
- Uau!
- Mas Saturno também me dá tesão, deve ser por causa dos anéis.
Evidente que versaram matérias suplementares, mas não demasiadas, foi também nessa madrugada que se percebeu que o Zé Manel se iria chamar "Manu" daqui para a frente, escapatória não havia:
- Me gusta marihuana, me gustas tu... Me gusta marihuana, me gustas tu...
Mesmo sendo o êxito daquele Verão finimilenar, a cantilena não desenvolvia, não passava dali, Birgitt dera o mote e assim ficariam pedrados a ver a espuma das ondas, a Lua encarregava-se de a iluminar. Mais un dia e estaria cheia, cenário ideal para, na sua trip vicentina, Manu fantasiar con um tsunami, com um vagalhão que engolisse não só o rectângulo como o resto do planeta, e que num pestanejar fôssemos todos àgua, até porque foi ali que se multiplicou a vida, da primeira célula, pois."
Livro: "Terra Java"
Autor: João Lopes Marques
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